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O que são “romances de não ficção”?

Truman Capote e Perry Smith, um dos autores do assassinato da família Clutter Share this post

Você, leitor assíduo, provavelmente já esbarrou com o termo “romance de não ficção” durante suas leituras. Você sabe o que ele significa?

Se chamam romances de não ficção livros que contam histórias reais através de técnicas narrativas geralmente utilizadas em ficções. Embora o maior sucesso do escritor americano Truman Capote, A sangue frio (1966), seja creditado como o responsável pelo estabelecimento formal do gênero no universo da literatura, especialistas afirmam que foi o argentino Rodolfo Walsh e seu Operação massacre (1957) o primeiro romance de não ficção publicado. A obra narra os bastidores de uma ação policial que resultou no fuzilamento clandestino de doze civis acusados de conspirar contra o governo ditatorial que depusera Juan Domingo Perón no ano anterior. O autor utiliza elementos como diálogo, pontos de vista diversos e outros recursos emprestados da ficção para reconstituir o percurso dos prisioneiros na noite fatídica, conferindo à narrativa agilidade e tensão. Essas características são próprias do romance policial, sendo que, num primeiro momento, Walsh se tornou conhecido do público argentino por suas novelas e contos de suspense.

Quase dez anos depois, o americano Capote publicou, dividida em quatro partes na revista The New Yorker, a história do assassinato da família Clutter, em Holcomb, Kansas, e dos autores da chacina. Durante o processo de coleta de dados para escrever A sangue frio, o autor estabeleceu uma relação intensa com suas fontes, investigando e conversando com os moradores de Holcomb e com os dois criminosos, traçando um perfil extremamente humano de ambos. Seu estilo combina a precisão dos fatos com a força da emoção trazida pela expressão artística.

Depois de publicada, a obra influenciou diversos autores e estabeleceu o recurso narrativo como uma nova tendência. Em 1973, Tom Wolfe lançou a coleção de artigos jornalísticos The new jornalism, com textos de Gay Talese, Capote, Joan Didion, Hunter Thompson e outros, além do próprio Wolfe. A publicação acabou por popularizar o termo e indicar inéditas possibilidades literárias. O final dos anos setenta representou uma escassez do gênero, apesar de ser possível encontrar resquícios de suas técnicas em ensaios, memoirs e biografias posteriores.

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