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Meu olhar sociológico sobre Paddy Clarke – Texto do associado

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Escrito pelo associado Ivan Teixeira

Acabei de ler o livro Paddy Clark ha ha ha, de Roddy Doyle. A experiência da leitura me ofereceu um caminho para abertura da memória; trouxe lembranças esquecidas de uma época não tão distante, que foram acobertadas pelo peso das camadas mais atualizadas da minha existência. Ganhei bons momentos com risadas internas; saciei parcialmente uma necessidade de reviver um momento esquecido. Porém, sou sociólogo, e estou preso ao vício de vestir os óculos desta ciência quando também leio literatura de ficção. Aqui vou apresentar algumas ponderações sociológicas que este livro possibilitou-me.

Podemos considerar que a vida de todos é, em síntese, um processo de substituição do menino pelo homem; ou da menina pela mulher. Neste movimento nota-se, dentre outras adaptações – que em seu conjunto são conceituadas pela sociologia de “processo de socialização” – o “aparar das arestas” imposto pela sociedade sobre os impulsos “selvagens” do indivíduo.

O livro é um compêndio da experiência infantil constantemente mediada pelo que hoje se convencionou chamar de “bullying”, uma forma de eufemizar o velho impulso da violência que nos acompanha enquanto espécie. No livro, a violência é o elemento que serpenteia o seu enredo, do começo ao fim, nas linhas e nas entrelinhas. O garoto Paddy socializa-se em sua casa e nas ruas do bairro de Barrytown, cenário do livro. A narrativa combina um repertório do “politicamente incorreto”, que até meados dos anos 90 – na era pré-internet – foi o mundo de todos, sobretudo dos filhos de pessoas comuns, operários, barbeiros, trabalhadores da construção civil, funcionários públicos de baixo escalão.

Conflitos, competições, ameaças, ódio, raiva, medo, insegurança. Entre meninos estas formas de sociabilidade são caricaturais; como caricaturas, extrapolam o normal e assumem o código aceitável de convivência coletiva. Socos, xingamentos, chutes, rasteiras são como palavras que têm uma função interacional que denota intimidade, amizade e companheirismo. Um soco pode substituir uma filosofia. Entre meninas isso também ocorre, mas o código gestual utilizado é outro, ao menos, mais discreto.

Um soco no rosto é facilmente perdoado; o ódio que Paddy sente por seu irmão Simbad não é eterno. Dura alguns minutos e desaparece quando ambos combinam uma próxima aventura. Não há o drama e melancolia que acompanha o rancor existencial dos adultos. Paddy tem a suavidade traquina de um moleque que, depois de tomar uma bronca por ter aprontado mais uma sacanagem na rua, se prepara para o próximo episódio sem qualquer preocupação com o compromisso de “entrar na linha”, exigido pelos pais.

Esta interação mediada pela violência jocosa entre meninos tem fundamento dentro do lar, espaço do “poder” e da dominação masculina. Paddy sofria com as contingências do relacionamento entre seu pai e sua mãe, e tendia a assumir uma atitude de solidariedade com sua mãe, ao mesmo tempo em que se espelhava em seu pai, de modo inquestionável.

Paddy reproduzia nas ruas o mesmo comportamento do pai em casa, que demarcava o local com a fala grave e alta, submetendo a mãe ao seu domínio de “chefe da casa”, muitas vezes até mesmo praticando agressões físicas contra a mãe, que eram assistidas pelos filhos. Os amigos de Paddy não eram diferentes dele, assim como seu professor na escola. Algumas passagens contrariam nossas expectativas sobre certos personagens, de modo paradoxal. O efeito – alcançado com sucesso no livro – é reforçar esta violência intrínseca à infância entre os personagens mais improváveis, como por exemplo, quando o garoto David Geraghty, portador de poliomielite – e por isso com a mobilidade restrita e suportada por muletas – que, ao contrário do esperado, torna-se também um agressor como os outros, ao converter suas muletas em arma, desferindo um violento golpe contra Paddy.

Ao agredir Paddy, David Gerathy reforça seu vínculo de pertença com a “panela” de que faz parte. Quando esta “panela” de meninos decide boicotar Paddy Clarke, após uma briga épica deste contra outro aluno, o Kevin, todos os garotos desta “panela” passam a tratá-lo com indiferença e ameaças, culminando no golpe dado por David Gerathy.

Esta leitura sociológica é uma das possíveis outras leituras existentes neste riquíssimo livro. A TAG permitiu que esta reflexão fosse construída em mim. Agradeço a todos vocês pelo bom gosto em escolher um material literário tão valioso. Não fosse o trabalho de vocês eu não teria conhecido Paddy Clarke ha ha ha.

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