Colunistas / Carol Bensimon / Livros / Quase memória, de Carlos Heitor Cony

Quase Brasil

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Uma cadelinha agonizante fez Carlos Heitor Cony voltar a publicar romances. Ou quase. Era 1995. O pai, Ernesto Cony, tema do livro, morrera há 10 anos. Carlos Heitor então inventa um embrulho, faz com que ele chegue na recepção do Hotel Novo Mundo e coloca sua versão ficcional diante dele, consternado. Era a letra do falecido pai.

Não se trata aqui de esperarmos ansiosamente, página a página, que se revele o conteúdo do embrulho. Esse objeto, cheio das marcas do pai – a caligrafia, o nó perfeito, a maneira de escrever o remetente – funciona como um símbolo, um ponto de partida: é através de seus detalhes que as memórias de Cony vão sendo “puxadas”. Isso cria uma narrativa episódica, com gosto de “causo” e uma inegável doçura. Há muito humor em Quase memória.

Humor talvez não seja a palavra mais exata. Digamos que a escolha de Cony é retratar esse pai de uma maneira leve e mítica. Os episódios vão se empilhando e reforçando essa ideia: o pai é o que tem ideias absurdas, como produzir perfume em casa ou criar jacarés; o pai é o mentiroso inocente que descreve em detalhes uma viagem nunca realizada; o pai é o sujeito que se veste de forma peculiar, fora do tempo; o pai é aquele homem cuidadoso com as pequenas coisas.

Essa inocência e delicadeza parece vazar para fora da personagem e se estender ao Rio de Janeiro e ao Brasil onde (e quando) Ernesto Cony circulou. Aqui fica difícil de saber o que veio primeiro, se o ovo ou a galinha. O pai é fruto de um país mais ingênuo e inocente, ou é então a ingenuidade da personagem – ou, pra ser mais exata, a ingenuidade atribuída pelo narrador – o que constrói esse ambiente mais tranquilo, simples, singelo? Pessoalmente, aposto na segunda opção. Afinal, a instabilidade política, as relações promíscuas entre imprensa e governo, o “jeitinho brasileiro”, tudo já está lá, mas isso nos é contado pelo filtro de uma criança (Cony volta e, ao fazer isso, incorpora a criança que foi).

Difícil dizer se há um desencanto final. Acredito que ele venha mais pela inevitabilidade da morte que por um olhar mais amplo, de decepção nacional. Claro, há um mundo que morre com o pai, como sempre há na morte de alguém. O mundo em que era perfeitamente legal soltar balões de ar quente.

Interpretações mais abrangentes, porém, são possíveis. O jornalista Marcelo Coelho, em ocasião do lançamento de Quase memória, afirma que o bordão pessoal do pai do narrador, “Amanhã farei grandes coisas”, é típico de um burocrata modesto fantasiando aventuras sensacionais. E continua: “Nesse sentido, talvez Cony pai sirva como uma metáfora do Brasil: sempre esperando muito de si mesmo, sempre se enganando a esse respeito, mas sempre incapaz de trocar um benefício imediato pela graça, pela delicadeza, pelo delírio que ele próprio sabe ser falso, pela grandeza de um gesto inútil, pelo teatro modesto que há em ser brasileiro, fracassado mas completo e feliz na vida”.

Em 2017, o “fracassado” ainda nos veste bem. Tenho sérias dúvidas, no entanto, sobre o “feliz na vida”.

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