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Uma rosa entre os dentes

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Em primeiro lugar devo reconhecer que sou presa fácil de livros em que escritores abrem as portas de suas oficinas e refletem sobre o ato de escrever. A prova de que não estou sozinho nesse gosto é que o filão é gordo, além de variado. Esse tipo de obra parece exercer apelo até sobre quem não é nem sonha se tornar escritor – a menos que o último grupo, o dos sonhadores, seja mais numeroso do que sonha nossa filosofia.

Alguns títulos do gênero se concentram em aspectos técnicos, de carpintaria. Para quem não está tão preocupado assim com contrapontos temporais ou a diferença entre narradores em primeira e em terceira pessoa, apresentam interesse maior aqueles que misturam considerações técnicas com reflexões mais amplas, éticas ou existenciais, e histórias que jogam luz sobre as batalhas surdas travadas dia a dia na fronteira entre ofício e vida.

No primeiro caso está o subestimado Uma poética de romance, do romancista mineiro Autran Dourado. No último, Negociando com os mortos, da canadense Margaret Atwood. Cito dois exemplos de livros que foram, cada um em seu momento, importantes em minha história de leitor-escritor. Poderia citar muitos outros.

A louca da casa, de Rosa Montero, é um representante fogoso da categoria. Está mais para o livro de Atwood do que para o de Dourado – na verdade, questões de técnica romanesca são as que menos interessam à escritora espanhola. Montero é uma deliciosa contadora de casos e causos, tanto os que retira da própria vida (com a irônica ressalva final de que talvez minta um pouco) quanto os que vai buscar na biografia e na obra de outros escritores.

Sua paixão pela literatura salta aos olhos. Na mistura de ensaísmo lúdico e memória mais ou menos confiável, Rosa Montero se aproxima do inglês Julian Barnes – não por acaso, um dos escritores que ela cita. Do sutil autor de O papagaio de Flaubert, porém, ela se distancia no colorido ibérico da prosa e nas convicções eloquentes. Barnes vai descobrindo enquanto escreve aonde quer chegar. Rosa Montero já sabe.

Filha de um toureiro na vida real, é como se ela abanasse um pano vermelho, rosa entre os dentes, diante de cada tema: a vaidade infinita e potencialmente desastrosa dos escritores, sua perigosa relação com o poder, a “literatura feminina”, os fantasmas pessoais que sempre dão um jeito de voltar, driblando todas as defesas – em seu caso, personagens anões. Touro após touro, a competente Montero se esquiva no último segundo, olé!

A diversão é garantida e, nos melhores momentos, alguma intuição penetrante acerca do ato de escrever também. Fiquei assombrado com o que ela diz sobre as estranhas coincidências entre vida e obra que às vezes se avolumam quando a escrita do livro chega a um ponto culminante – a teoria do “funil”. Minha experiência diz que isso é verdade, por mais que não faça sentido ou que a razão não dê conta de explicar por que é assim. Olé outra vez.

Apesar de tudo, A louca da casa não figura entre os meus livros favoritos sobre o tema. Desconfio de suas certezas fulgurantes e de uma certa romantização daquilo que é, antes de mais nada, um trabalho. Escritores gostam de se ver como muito especiais, muito diferentes do resto da humanidade, tanto no sucesso quanto no fracasso. Desconfio que isso só ocorra porque cabe a eles, infinitamente vaidosos (nisso Montero tem razão), escrever a própria história.

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