Colunistas / Carol Bensimon / Livros / As alegrias da maternidade, de Buchi Emecheta

Três livros impiedosos sobre maternidade

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É possível que não lêssemos o livro da nigeriana Buchi Emecheta com ironia se seu título fosse algo diferente de As alegrias da maternidade. Nas páginas do romance, nem a figura do narrador nem a da protagonista Nnu Ego (duas entidades distintas) fazem grandes julgamentos; os acontecimentos vão se desenrolando com objetividade e portanto cabe somente ao leitor refletir sobre as escolhas de Nnu Ego (ou as escolhas que ela não tem). Todo o cenário, evidentemente, nos causa estranhamento: as tradições familiares, o pensamento mágico, a segregação étnica, a importância da fertilidade – algo como uma justificativa para a existência das mulheres. E aí que está o maior mérito do livro: revelar-nos um universo que é tão distante do nosso, mas que nos provoca reflexões universais.

Enquanto as adversidades se sucedem na vida de Nnu Ego, ela própria não sabe exatamente que atitude tomar em relação aos costumes de seu povo, oscilando entre obedecer ou modernizar-se. Nesse sentido, o título do livro me parece providencial. Com ele, Buchi Emecheta sela uma conclusão, quase uma “moral da história”: no balanço das coisas, ter filhos não trouxe grandes alegrias à personagem. Aquela sociedade, que só conseguiu enxergá-la como reprodutora e perpetuadora de uma descendência, condenou-a a uma vida de anulação e sacrifícios. Não é pouca coisa.

Livros que questionam a maternidade são interessantíssimos, corajosos e bastante raros. Recentemente, cedendo à febre Elena Ferrante, adquiri A filha perdida, romance publicado na Itália em 2006, mas que só saiu por aqui no ano passado, depois do sucesso de sua tetralogia napolitana. Nesse pequeno romance, Ferrante nos conta a história de uma mulher que, tendo as filhas já crescidas, resolve passar as férias sozinha em uma praia italiana. Ainda que esse cenário contemporâneo e ocidental seja muito mais favorável a mulheres – se comparado à Nigéria dos anos 30 e 40 ­– lá estão inúmeras reflexões impiedosas sobre a maternidade: “Bianca [a filha] estava chorando quando a encontraram, quando a trouxeram de volta para mim. Eu também chorava, de felicidade, de alívio, mas, no entanto, gritava de raiva – como minha mãe – pelo peso acachapante da responsabilidade, pelo vínculo que sufoca, e empurrava minha primogênita com o braço livre (…)”. Outro exemplo de coisas que não costumam ser ditas em voz alta: “Queria que minhas filhas fossem amadas, não suportava que não fossem, a possível infelicidade delas me aterrorizava. Mas as lufadas sensuais que sopravam delas eram violentas, vorazes, e eu sentia que o corpo delas tinha como que roubado o poder de atração do meu.”

Mas o livro possivelmente mais impiedoso sobre maternidade foi escrito pela norte-americana Lionel Shriver e lançado em 2003. Trata-se de Precisamos falar sobre o Kevin (há uma boa adaptação cinematográfica da obra). Nele, a narradora Eva relata a história de seu filho Kevin que, com apenas 15 anos, protagoniza um massacre escolar com saldo de 11 mortos. Então temos uns trechos assim: “É só isso que eu sei. Que, no dia 11 de abril de 1983, nasceu-me um filho,  e não senti nada. Mais uma vez, a verdade é sempre maior do que compreendemos. Quando aquele bebê se contorceu em meu seio, do qual se afastou com tamanho desagrado, eu retribui a rejeição – talvez ele fosse quinze vezes menor do que eu, mas naquele momento, isso me pareceu justo. Desde então, lutamos um com o outro, com uma ferocidade tão implacável que chego a admirá-la.”

Às vezes, a literatura serve para dizer o que as pessoas não dizem na vida.

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