Colunistas / Sérgio Rodrigues / Livros / Quase memória, de Carlos Heitor Cony

Um belo MacGuffin

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O pacote misterioso que o narrador recebe no primeiro capítulo de Quase memória é, até onde sei, o maior MacGuffin da literatura brasileira. Não só o mais ostensivo, o mais cintilante em sua pureza macguffinesca, como também o que rende melhores resultados literários.

Convém explicar que papo é esse. MacGuffin é um termo nascido no universo dos roteiros de cinema nas primeiras décadas do século XX e estendido mais tarde à arte narrativa em geral. Nomeia um objeto que põe para rodar toda a máquina da história, mas que, no fim das contas (olha o spoiler), permanece oculto ou se revela desimportante em si mesmo, pura função sem substância. Mas que função!

Sem ter sido seu inventor, o diretor inglês Alfred Hitchcock foi o maior propagador do MacGuffin. Numa conferência acadêmica de 1939, explicou-o assim: “É um nome escocês, tirado de uma história sobre dois homens em um trem. Um homem diz, ‘O que há nesse pacote no bagageiro aí em cima?’, e o outro responde:  ‘Ah, é um MacGuffin’. O primeiro pergunta: ‘O que é um MacGuffin?’ E o outro: ‘Bom, é um aparelho para capturar leões nas terras altas da Escócia’. O primeiro então observa que não há leões nas terras altas da Escócia e o outro responde, ‘Bem, então não há MacGuffin!’. Como se vê, o MacGuffin é, na verdade, nada.”

O pacote recebido por aquele quase-Carlos Heitor Cony no início de seu quase-romance tem todas as marcas de lhe ter sido endereçado por seu quase-pai, mas há um problema nisso: o velho está morto – e aqui não cabe um “quase”, o óbito é cabal – há muitos anos.

Como bom MacGuffin, o pacote detona então o fluxo de memórias do narrador sobre o pai, uma figuraça ambígua e inesquecível, entre enervante e enternecedora, patética e gloriosa. Esse fluxo vai compor, claro, corpo e alma do próprio livro. O que há ou deixa de haver no pacote, ou mesmo a realidade de sua existência, nada disso tem a menor importância.

Lírico e cômico, Quase memória é um desses livros raros em qualquer literatura, nos quais uma realização artisticamente séria tem a felicidade de encontrar, sem concessões ao populismo, um canal de comunicação desimpedido com uma multidão de leitores.

Cony merecia isso. Estabelecido na juventude como uma das vozes mais fortes da literatura brasileira, mas frequentemente visto como um autor “desagradável” em seu existencialismo sombrio e iconoclasta, é provável que seja mais lembrado no futuro por esse delicado Quase memória do que por livros cascudos como Pilatos ou Pessach: a travessia. E talvez esteja de bom tamanho assim.

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