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Entrevista: Andrés Barba e “Todos os nossos ontens”

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“Natalia Ginzburg foi amor à primeira vista.”

A Madri que Andrés Barba vê da janela enquanto responde a esta entrevista é muito diferente da cidade que ele aprendeu a amar desde a infância. A pandemia do novo coronavírus fez o escritor antecipar o final da temporada que passaria em Nova Iorque e regressasse às pressas à cidade natal. Foi de um apartamento alugado no Airbnb, sem os seus livros, sem poder frequentar os cafés e lugares onde costuma trabalhar e encontrar amigos, que o autor de República luminosa (Todavia) contou sobre as suas leituras, o seu trabalho como tradutor e os seus livros.

Ainda pouco conhecido do público brasileiro, o ensaísta, romancista e poeta espanhol nascido em 1975 acumula prêmios importantes (como o Torrente Ballester, o Juan March e o Herralde) desde que estreou na literatura com La hermana de Katia, em 2001. Ele foi curador dos kits de junho da TAG Curadoria, para os quais escolheu o romance Todos os nossos ontens, de Natalia Ginzburg.

TAG — Vi você dizer numa entrevista que na infância e adolescência não se sentia atraído pelos livros. Em que momento eles começaram a fazer parte da sua vida? Houve alguma situação, algum episódio que aproximou vocês?

Andrés Barba — A verdade é que não houve, ou pelo menos eu não me lembro, nenhuma situação em particular. Acho que posso dizer que sou o exemplo de que a melhor maneira de criar novos leitores é deixar que eles se aproximem de maneira natural e espontânea da leitura, sem pressão. No meu caso, comecei a ler quando a obrigação de ler acabou.

Você escolheu Natalia Ginzburg para os associados da TAG lerem. E você traduziu alguns livros dela. Como surgiu essa atração? Foi ao traduzi-la que se encantou ou já estava apaixonado por ela e por isso traduziu seus livros?

Comecei a ler os seus livros há uns dez anos por recomendação da minha mulher. Gostei tanto que procurei saber quais livros ainda não tinham sido traduzidos na Espanha e propus ao Jaume Vallcorba, da editora Acantilado, que eu os traduzisse. Enfim, foi amor à primeira vista e até hoje continuo encantado por ela.

O que a Ginzburg tem que tanto o atrai? O que acha que alguém como eu, que ainda não a conhece, vai descobrir ao mergulhar nos seus livros?

Só alguém muito sábio é capaz de descrever as coisas com a simplicidade com que ela faz. É preciso ter pensado muito e muito bem sobre a vida para escrever daquela forma.

A infância é um assunto muito presente na sua obra. Não só na República luminosa, que saiu no Brasil no ano passado, mas em outros livros, como por exemplo Las manos pequeñas. Por que essa fase da vida o interessa tanto? O que podemos aprender ao prestarmos atenção à nossa infância?

A infância é um lugar interessante não só pelo que ela constitui, mas pela maneira como, ao longo da História, a nossa relação com ela foi se modificando. Atualmente é inevitável pensar nela como um paraíso perdido, uma concepção que vem do Iluminismo e da morte de Deus no pensamento ocidental: ao perder a ideia do paraíso, foi preciso criar a ficção de que há um paraíso na terra, e esse paraíso é a infância. Essa é uma ficção quase universalmente aceita e que gera uma constelação de ficções paralelas: umas muito idealizadas e outras concretamente falsas ou perversas.

A questão da linguagem também está bastante presente na sua obra. Além de romancista e ensaísta, você é tradutor. A tradução tem, para você, o sentido de preparação, ensinamento para os seus livros, ou é um trabalho à parte, que não se mistura com a criação literária?

Sim, claro que sim, a tradução é a maneira mais atenta de se ler. E eu tive a sorte de traduzir grandes autores. Da Natalia Ginzburg foram quatro livrod, por exemplo. E tenho outros troféus como Moby Dick e os relatos completos de Conrad. Traduzir alguns desses textos, para alguém que escreve, é como assistir à sua gênesis. Algumas vezes sou capaz de adivinhar as dúvidas que os autores tiveram no momento em que escreviam aquelas páginas. E é estranho, mas muitas vezes me lembro melhor dos textos que traduzi do que dos meus próprios livros.

O seu livro Las manos pequeñas tem uma relação com Clarice Lispector, como é essa história? Há mais autoras e autores do Brasil que chamam a sua atenção?

A minha fixação pela Clarice Lispector durou muitos anos. Numa das suas crônicas, ela relata um episódio que aconteceu num orfanato no Rio de Janeiro. Esse episódio se converteu na base do meu livro. Não posso contar mais sem revelar a história, mas posso dizer que, assim como Ginzburg, Lispector tem um invejável dom literário de ler a realidade a partir de uma perspectiva sempre realista que, paradoxalmente, ganha uma dimensão mágica. A metafísica de Lispector nasce sempre da física. A realidade, ao se saturar da sua consciência, se torna estranha, hiper-real.

Além da Lispector, eu sou super fã de Carlos Drummond de Andrade e de Machado de Assis. E obviamente preciso conhecer mais coisas, alguma sugestão?

A estante de Andrés Barba

O último livro que li foi: Os testamentos traídos, de Milan Kundera

O livro que estou lendo: Mentira romântica e verdade romanesca, de René Girard

O livro que eu gostaria de ter escrito: A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector

O último livro que me fez chorar: O livro das horas, de Rilke

O último livro que me fez rir: O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

O livro que eu não consegui terminar: Guerra e paz, de Lev Tolstói

O livro que eu dou de presente: Livros da Natalia Ginzburg em geral

O livro que mudou a minha vida: Folhas de relva, de Walt Whitman

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