Colunistas / Letícia Wierzchowski / Livros / As três Marias, de Rachel de Queiroz / Coleção 2017

Essas mulheres

Coluna de Letícia Wierzchowski sobre "As três Marias" Coluna "As três Marias" Share this post

Toda vez que um leitor abre um romance, ele faz um pacto com o seu autor – pacto esse que Orhan Pamuk chama de “a supressão da descrença”.  Segundo Pamuk, mesmo sabendo que aquilo ali é história inventada, se o autor cumprir direitinho a sua tarefa, o leitor vai acreditar em cada palavra. Se o autor cometer um erro, o leitor desconfiará, passando a ler a história com suspeita crescente: quando isto acontece, quebrou-se o pacto de supressão da descrença.

Eu assino de olhos fechados este contrato com Rachel de Queiroz. Uma das grandes vozes femininas da literatura brasileira, ela também foi a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras. E, embora Rachel se arvorasse contra o feminismo (o feminismo óbvio dos manuais), ela foi capaz de erguer magistralmente grandes personagens de saias, versões poderosas do que ela considerava “as grandes mulheres do sertão” –  tal e qual a sua avó, senhora de terras que, tendo enviuvado cedo, chamou seu filho (o pai de Rachel) para assumir a lide das fazendas, mas seguiu sendo a grande cabeça por trás da família.

As mulheres de Rachel não são coitadinhas: rompendo os limites a elas relegados numa época em que a mulher crescia na vida quase sempre pelo casamento, suas personagens são transgressoras, fortes e violentas em seus desejos. Tateando em busca dos seus papéis na vida cotidiana e no futuro, elas não se furtam às novidades, à descrença no estabelecido.

E assim sucede com as três Marias que dão nome ao romance editado este mês pela TAG: de meninas a mulheres, Maria Augusta, Maria José e Maria da Glória estão no mundo para as sofrências e alegrias que a vida oferece. Somos levados pelas páginas através da narrativa de Guta (a Maria que é Augusta) – jovem inquieta, cheia de coragem e de questionamentos que ainda hoje soam modernos.

Gosto muito é da frase de Mário de Andrade sobre As três Marias: “Talvez só haja um homem bem homem no livro: o Romeu que rouba a moça, contra tudo e todos. Mas desse a escritora só nos mostra um braço!” Pois, não é mesmo? Todos os outros homens são mesmo criaturas frágeis, dominados de uma forma ou outra por mulheres, até mesmo pelas mulheres defuntas. O pai de Maria da Glória permitia que ela o chamasse de mãe! E um outro personagem masculino chega até ao suicídio (provocando a mágoa e o escárnio de Guta).

Três Marias é um livro forte, e cada sonho logo se quebra, colidindo com os muros do colégio interno ou, pior ainda, com a realidade incessante do lado de fora. Mas é também um livro triste. Seguimos com Guta no rumo da sua vida adulta e, embora ela não se fruste às experiências mundanas, parece sair de cada uma delas ainda mais desencantada. Terminei o livro com o peito oprimido, presa do mesmo trem no qual Maria Augusta cruzava a noite do sertão e embalada na mesma melancolia. Porque Três Marias é um livro sobre mulheres, mas é talhado com o talento afiadíssimo de Rachel de Queiroz.

Um PS: acho delicioso um jogo de espelhos da vida real: Rachel, a escritora, no Rio de Janeiro, morava num edifício chamado Rachel de Queiroz! Já daria um belo personagem, não é mesmo?

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