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Quem foi Chinua Achebe, considerado pai da literatura nigeriana moderna

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Quinto de seis filhos, Albert Chinualumogu Achebe nasceu em 1930, no vilarejo de Ogidi, lado oriental de uma Nigéria colonizada pelo império britânico. Sua criação seria invariavelmente marcada por uma inescapável mistura de culturas contrastantes, mas o contexto da vida do menino reforçava essas condições de forma ainda mais peculiar. Àquela altura, famílias privilegiadas como a de Chinua eram educadas em inglês, e o cristianismo – difundido com entusiasmo pelo seu pai, um dos primeiros convertidos daquela região – começava a se alastrar pelo país. Tais circunstâncias não impediam o menino de permanecer avidamente interessado pela religião e cultura dos seus antepassados. Afinal, Chinua e sua família pertenciam à etnia Igbo, um dos maiores e mais tradicionais grupos étnicos da África.

Havia, porém, um problema crucial. Por mais que se tentasse conciliar de maneira harmônica costumes do passado e do presente, a imposição de uma vida aos modos europeus na Nigéria – e na África como um todo – enfraquecia qualquer tentativa de valorização das ancestralidades. Nas instituições de ensino pelas quais passou, Achebe foi educado com uma visão unilateral sobre história, seus colonizadores e sobre si mesmo. Leu autores como Shakespeare, Dickens e Swift, além de diversos romances europeus sobre a África. “Eu não me via como um africano naqueles livros. Eu estava do lado dos homens brancos contra os selvagens. (…) O homem branco era bom, racional, inteligente e corajoso. Os selvagens que estavam contra ele eram sinistros e estúpidos, nunca caracterizados com algo superior à astúcia. Eu os odiava”, escreveria em seu livro The Education of a British-Protected Child (2009).

Mas a maturidade foi chegando e, com ela, as máscaras e mentiras foram sendo expostas. Na então recém-criada Universidade de Ibadan, onde trocou o estudo de medicina pelo de artes liberais, Achebe testemunhou o renascimento de políticas de celebração cultural da África e da luta contra o colonialismo. Revoltou-se com a leitura de romances como Mister Johnson (1939), de Joyce Cary, e suas descrições abertamente preconceituosas e ofensivas sobre personagens africanos. Chinua estava convencido: era seu dever contar o outro lado da história – o seu lado, aquele que por anos a fio fora contado de maneira tão rasa e desonesta pela concepção estrangeira.

Inicialmente publicando ensaios e contos, Achebe experimentou e desenvolveu um estilo próprio de escrita, que combinava a influência do romance europeu com a tradição oral dos igbos. Do mesmo modo, boa parte de seus textos discutiam o conflito entre tradicionalismo e modernidade, história do cristianismo e das religiões africanas. Em 1954, conseguiu um emprego em uma importante rádio local na cidade de Lagos, quando, enquanto trabalhava na criação de scripts, começou a escrever seu primeiro romance. Quatro anos de aperfeiçoamento e diversos envios a editoras inglesas culminaram na publicação de O mundo se despedaça (1958), livro que permaneceu até a morte de Achebe como sua criação mais relevante.

Ambientado durante o fim da Nigéria pré-colonial (ou seja, em um lugar que ainda não era a Nigéria), o romance conta a história de Okonkwo, um guerreiro igbo reconhecido nas nove aldeias do clã Umuófia. Homem de temperamento violento, Okonkwo é assombrado pela lembrança de seu falecido pai, Unoka, um senhor julgado por ele como preguiçoso, covarde e pobre, que morreu miserável e sem respeito na aldeia. O passado do progenitor o envergonha, e Okonkwo deseja mais do que tudo ser o exato oposto do que Unoka fora. Por isso, sempre que possível demonstra sua brutalidade e virilidade, além de se dedicar com afinco aos negócios, o que lhe permitiu casar com três mulheres e ter grande respaldo da sua comunidade. Mais do que medo dos impiedosos deuses ou da má sorte de seu chi – espécie de espírito guardião individual –, Okonkwo teme a fraqueza e o fracasso.

Conhecida hoje como uma das obras fundamentais da literatura africana, com cerca de 20 milhões de cópias vendidas e traduzida para mais de 50 línguas, O mundo se despedaça compreende qualidades e suscita interpretações que intrigam leitores e críticos até hoje, mais de 60 anos depois da sua publicação. Com críticas favoráveis surgindo dos mais respeitados periódicos, o título foi um sucesso imediato na Inglaterra e nos Estados Unidos. Na Nigéria, seu processo de popularização foi lento, já que poucos nativos dominavam o inglês com fluência e o livro era caro para os padrões locais. Isso mudou depois da independência do país, em 1960, quando edições mais baratas foram disponibilizadas e a crítica literária nacional ganhou corpo. Em 1964, o romance foi incluído nas leituras obrigatórias de diversas escolas do país – até então, todas as obras indicadas eram escritas por europeus ou americanos.

Agora na condição de porta-voz de uma nação perante o mundo, Achebe deu continuidade à sua obra com três romances na década de 1960, todas abordando o conflito entre modos tradicionais de vida e as perspectivas novas e coloniais. O primeiro, A paz dura pouco (1960), conta a história de Obi, neto do personagem Okonkwo, tratando de contexto e questões mais contemporâneas e demonstrando sua habilidade em expor a vida na Nigéria moderna. Em A flecha de Deus (1964), o autor constrói a narrativa por meio da alternância entre as visões inglesa e interna de uma aldeia Igbo. O escritor também publicou a sátira A man of the people (1966), obra nunca traduzida para o português, que, voltada para questões políticas e morais internas do continente africano, acabou por antecipar os golpes de estado da Nigéria em 1966 que culminaram na proclamação da República do Biafra e na consequente Guerra do Biafra, que durou trinta meses e matou centenas de milhares de cidadãos igbo. Apoiador da independência biafrense, o escritor e sua família precisaram fugir por diversas vezes durante o conflito, e Achebe chegou a viajar para os Estados Unidos para divulgar internacionalmente os grandes dramas de seu povo.

As consequências da guerra deixaram marcas profundas na obra do escritor, que, abalado, parou de escrever romances por cerca de vinte anos. Nesse ínterim, dedicou-se ao magistério em universidades americanas e nigerianas e publicou elogiados contos e compilações de poesia – o formato mais curto e intenso desses gêneros eram compatíveis, segundo o escritor, com seu estado de espírito à época. Somente em 1987 voltaria ao formato que o consagrou, com Anthills of the Savannah.

Em 1990, Achebe sofreu um grave acidente de carro que o deixou irreversivelmente paraplégico. Sua motivação para escrever e lecionar, no entanto, manteve-se intacta, e ele foi professor por mais de quinze anos na Bard College, no estado de Nova York. Receberia o prêmio mais importante da carreira, o Man Booker International Prize, pelo conjunto da sua obra, em 2007. A essa altura, nem mesmo um Prêmio Nobel seria necessário para garantir o lugar de Achebe, falecido em 2013, aos 82 anos, como um dos autores mais representativos do século XX. Da sua grandiosa estreia com O mundo se despedaça até sua morte, o escritor tomou para si a missão de apresentar ao mundo a perspectiva do seu povo. E ainda criou, simultaneamente, uma linguagem inédita e autêntica, um híbrido entre a tradição anglo-saxã e a oralidade nigeriana que pavimentou o caminho para incontáveis escritores africanos de língua inglesa que surgiriam depois.

1 comment

Ivone Marques Dias. 7 de novembro de 2019 Responder

Obra respeitável, encontra sua continuação em A paz dura pouco e À flexa de Deus. Seria bom ver sua obra Cupins da savana traduzida para o português.

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