Letícia Wierzchowski / Livros / TAG Curadoria

A viagem da memória

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Uma das grandes matérias-primas da literatura é a memória. Histórias recordadas, dramas familiares, pequenos casos que, vistos à luz do tempo, enfeitados aqui ou ali, ganham contornos de beleza ímpar. Ainda estou aqui é um livro de memórias. Um livro de um autor que fez um tremendo sucesso quando eu era garota com seu impressionante – e verídico – Feliz ano velho. Já li outras coisas de Marcelo Rubens Paiva, mas sempre que penso nele, penso em Feliz ano velho. Um choque, uma revelação, um livro excitante e dramático para a garota de 15 anos que eu fui – até hoje lembro da varanda na praia e dos passeios negados em prol daquele livro que falava de sexo, maconha, vida e morte com tamanha naturalidade, um livro real de um cara real, que, meio doidão, tinha pulado de verdade num lago e batido de cabeça no fundo, ficando tetraplégico.

Agora, sempre que eu pensar em Marcelo, pensarei também em Eunice Paiva, sua mãe e figura principal de Ainda estou aqui. Claro, em todo o livro, como em toda a vida dos Paiva, plana a presença impalpável de Rubens Paiva, deputado torturado e morto durante a ditadura. Em Ainda estou aqui, Marcelo, com alguns volteios e idas e vindas no tempo, reconstrói a trajetória da família para nos apresentar a figura de sua mãe, Eunice, “italianinha” linda, corajosa e aguerrida, que tocou a família adiante depois do terrível trauma do desaparecimento do marido nas mãos dos militares.

E Eunice é um espanto: assim como a viuvez revela-lhe um outro lado da vida – ela volta a estudar, forma-se advogada, faz e acontece; o livro nos mostra as entranhas de uma família cheia de grandes e dramáticos acontecimentos, uma família que segue firme, que verga mas não quebra, comandada por uma mulher incrível. O último grande lance dos Paiva é a doença de Eunice – aos 70 anos, quando finalmente fez as pazes com o passado, juntou grana o bastante e fez seu nome no mundo do Direito, Eunice começa a ter pequenas falhas de memória, estranhamentos e confusões. Depois de algum tempo, ela é diagnosticada com Alzheimer e mergulha na profunda e sinuosa viagem da doença. E Marcelo envereda nesta história, talvez tentando recuperar todas as memórias que sua mãe perdeu.

Eu chorei lendo o livro – chorei quando a mãe Eunice (que era uma mulher de muitas facetas), mesmo tendo já esquecido quase tudo, segura a mão do filho tetraplégico e repete o exercício que fizera nele durante os últimos 30 anos para manter seus dedos flexíveis. Memória do corpo, memória intrínseca de uma mãe. Fiquei muito tocada por esta viagem nas histórias dos Paiva. Eu chorei com meu coração de filha, e chorei com meu coração de mãe.

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