Colunistas / Sérgio Rodrigues / Livros / As alegrias da maternidade, de Buchi Emecheta

As alegrias da literatura

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O nome do mais conhecido dos romances que a escritora nigeriana Buchi Emecheta escreveu em inglês vai além da ironia. Com sua falsa aura edulcorada de revista Pais e Filhos, o título As alegrias da maternidade oferece um contraste tão violento com a vida infeliz de sua protagonista, Nnu Ego, que seria mais adequado falar em cruel sarcasmo.

No entanto, a pista da crueldade também não nos leva muito longe como chave de leitura desse clássico da chamada “literatura pós-colonial”, gênero que nas últimas décadas tem feito a alegria de críticos europeus e americanos dispostos a purgar pela exegese da arte alheia a culpa de pertencer ao time dos dominadores.

Emecheta trata Nnu Ego com uma mirada dupla que consegue unir o olho clínico a uma empatia comovente. Filha de um grande chefe africano, sua protagonista está condenada de saída, desde a tentativa malograda de suicídio que abre o livro, a ser até o fim prisioneira de uma cultura tradicional em que as mulheres só encontram sua identidade e justificam sua existência pela capacidade de gerar filhos – de preferência do sexo masculino.

Tanto no momento em que é incapaz de cumprir essa missão com seu primeiro marido, que a devolve ao pai, quanto mais tarde, ao despejar bebês no mundo na expectativa – amargamente frustrada – de que eles a amparem na velhice, Ego permanece submissa ao molde em que foi criada. Não é uma feminista. Sua vida não dá um panfleto. E por isso é mais pungente.

O mundo se transforma à sua volta, tornando possível uma compreensão mais alegórica da história de Ego, que se muda de sua aldeia para a moderna Lagos num contexto que é ao mesmo tempo de triunfo cultural do colonizador britânico e de crise desse modelo. Esmagada entre tradição e modernidade, permanece fiel a si mesma, se isso pode ser dito de uma individualidade que mal chega a se constituir.

Se os críticos tendem a preferir as alegorias claras e abrangentes em suas leituras da arte “pós-colonial”, a história de Ego tira sua maior força do fato de expor ambiguidades, fraquezas, contradições e confusão de uma vida triste, com coragem e sem redenção. Ela própria mãe desde cedo, encarregada de criar uma penca de filhos sozinha no desterro londrino enquanto estudava e trabalhava, Emecheta conseguiu conferir ao livro um tom de autenticidade que é seu principal trunfo literário.

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