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“Amada” é um tributo às mais de 70 milhões de pessoas negras escravizadas

Toni Morrison, Amada Share this post
     Ana Souza

Em 1933, a escritora estadunidense foi a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Sua morte, em 2019, foi uma das mais sentidas da década. Toni Morrison escreveu não só grandes obras literárias, mas também seu nome na história da literatura mundial — para sempre

Em “Amada”, uma das suas mais potentes e devastadoras obras, Morrison traça uma consistente investigação sobre maternidade e o impacto devastador da escravidão na humanidade do povo negro. O livro, considerado a obra-prima da autora, é um tributo às mais de sessenta milhões de pessoas negras que foram vítimas do sistema escravocrata. 

Ambientado em 1873, a obra é baseada em fatos reais e retrata a história de uma mulher escravizada que foge com os filhos da fazenda em que vivem. Quando está cercada e prestes a ser pega de volta, ela mata uma das suas filhas, um bebê ainda de colo.

Segundo Itamar Vieira Júnior, autor do grande sucesso nacional “Torto Arado”, Toni consegue com excelência — que só as grandes mentes da literatura conseguiria — nos retratar um crime hediondo como algo “que poderia ser praticado por qualquer um, se vivessem a sua vida.”. Como explica Itamar, a força da literatura de Morrison nos transfere para o lugar de sua personagem, e ninguém ficará indiferente às razões de seu ato.

“A minha interpretação é de que Sethe desejava libertar sua criança de um destino que, para seus valores morais e éticos, era muito pior que a própria morte. Morrer num contexto histórico cruel como o retratado em Amada pode significar a liberdade definitiva, e só somos capazes de compreender isso ao nos colocarmos no lugar da protagonista”

— Itamar Vieira Júnior

Em 1998, “Amada” recebeu uma adaptação cinematográfica, com Oprah Winfrey no papel principal. O livro, que não segue uma linha de tempo linear, cruza o ponto de vistas de diferentes personagens que se constroem em contextos diferentes: onde alguns nascem antes e outros após a abolição da escravidão.

A personagem central de “Amada”, Sethe, é uma ex-escrava que vive na casa da sogra com a filha, Denver; junto as marcas do passado, deixadas pela escravidão no seu corpo e na sua mente. Apesar de legalmente livre — a escravidão havia sido recentemente abolida nos EUA —, Sethe não consegue se livrar das amarras e cicatrizes, sobretudo mentais, deixadas por anos de violência praticada pelo sistema escravocrata.  

      Ilustração: Gabriela Pires

A narrativa do texto é complexa e, ao mesmo tempo, poética e arrebatadora — de um jeito que apenas a Toni Morrison conseguiria escrever. “Amada” não é uma leitura passiva; Toni chama a pessoa leitora a construir e desvendar as nuances da história junto a ela, sem nunca deixá-la na mão. Porém, ainda que seja possível compreender todos os acontecimentos da trama, os detalhes não são revelados: isso acontece em razão da dificuldade em relembrar e retratar o horror vivido pelos personagens

“Amada” é uma daquelas obras que sentimos, ao terminar de ler, que jamais voltaremos a ser as mesmas pessoas. Que nos recorda a necessidade de lutar diariamente para reparar o passado no presente e não repetí-lo no futuro. Desde 2020, vemos a desigualdade racial ainda mais acentuada pela pandemia. Neste cenário, ler Toni Morrison é necessário e, quiçá, urgente

Para conhecer a edição de “Amada” (em capa dura!) que faz parte da Trilha Vozes Negras — junto a outros seis grandes livros da literatura nacional e internacional, acesse aqui. Vamos enegrecer as nossas bibliotecas?

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