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Quem é Alice Walker, uma das grandes escritoras norte-americanas

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“Tudo começa ao querermos entender algo, seja uma pessoa ou apenas um acontecimento.”

A frase de Alice Walker sobre a produção de seus romances dá o tom de sua literatura: sua obra busca examinar e entender o passado e as mazelas da comunidade negra norte-americana. A escritora, engajada em iniciativas políticas desde os anos 1960, se fez notar pelo retrato vívido do cotidiano de mulheres negras e a complexidade das relações humanas que acompanha essa perspectiva.

Walker nasceu em 9 de fevereiro de 1944 na pequena comunidade rural de Eatonton, no estado da Geórgia, região sul dos Estados Unidos. Foi a mais jovem de oito irmãos, prole de um casal que ganhava seu sustento por meio da parceria rural (ou sharecropping), que, no contexto pós-guerra civil para os americanos negros, era na prática uma continuação da escravidão. Apesar das dificuldades, a mãe de Alice, que para ajudar a aumentar o salário miserável era também costureira, vislumbrava um futuro melhor para a filha. Por isso, impediu a caçula de seguir os trabalhos rurais dos mais velhos, inscrevendo-a em uma escola aos quatro anos de idade.

É muito improvável que Walker, até então uma criança extrovertida, tivesse seguido o rumo que seguiu se um trágico acidente durante a infância não lhe tivesse ocorrido. Com oito anos, brincando com dois de seus irmãos mais velhos, foi atingida por uma bala de chumbo que lhe custou a visão de um olho e prejudicou severamente sua autoestima. Ela, então, retirou-se das atividades comuns de infância, encontrando refúgio nos livros e na escrita de poesia. Sem espaços silenciosos para ler e escrever em um ambiente onde circulavam dez pessoas, passou grande parte de seu tempo trabalhando em sua literatura na parte externa de casa, encontrando a tranquilidade de que necessitava debaixo de uma árvore.

Embora uma cirurgia para remover a cicatriz de seu olho, anos mais tarde, tenha contribuído para que Alice voltasse a ser uma jovem confiante, a literatura já havia deixado uma marca indelével. Nas escolas racialmente segregadas em que estudou, foi uma aluna de destaque, e ainda hoje menciona os professores que lhe incentivaram a imaginar e a buscar um futuro melhor com as próprias forças. Se faltaram recursos, o que sobrou na infância de Alice Walker foi o apoio de sua comunidade, que lhe deixou o caminho aberto para ir atrás de um destino distinto. Acima de tudo, foi sua mãe que a incentivou desde cedo a ser escritora.

Em 1961, Walker recebeu uma bolsa para estudar na Spelman College, à época uma faculdade para mulheres negras, em Atlanta. Durante sua passagem pela cidade, foi ativa na luta pelos direitos civis, acompanhando de perto a insurreição de figuras como John Lewis e Julian Bond contra a segregação no país e, mais tarde, presenciando a Marcha de Washington, onde Martin Luther King proclamou o famoso discurso Eu tenho um sonho. Insatisfeita com o posicionamento político da Spelman, que, segundo ela, preferia formar mulheres comportadas e sem espírito crítico a incentivar o ativismo, Walker partiu para o estado de Nova York, onde recebeu outra bolsa na Sarah Lawrence College, instituição de artes liberais que lhe proporcionou um intercâmbio estudantil em Uganda, em 1964. No mesmo período, um drama abalou Walker: a escritora precisou se submeter a um aborto, episódio que a colocou em profunda depressão. Seu único refúgio foi, novamente, a escrita. A autora escreveu poemas como forma de apaziguar sua ansiedade e dor. Alguns de seus rascunhos foram parar nas mãos de uma professora, que, impressionada, levou o projeto adiante. Parte desses poemas foram a base para sua primeira publicação, Once (1968).

Walker retornou brevemente à Geórgia após sua graduação para ajudar no movimento por direitos civis. Viajava para as zonas mais afastadas e ia de porta em porta oferecer o registro de voto a pessoas negras e pobres. Testemunhar o impacto da pobreza nas relações entre negros e negras foi essencial para a consolidação de suas convicções; esse trabalho continuou quando ela partiu para o Mississippi, anos mais tarde, onde se casou com o advogado judeu Melvyn Leventhal, do qual se separou em 1976. Primeiro casal interracial do estado, os dois precisaram superar dificuldades e ameaças de morte. Apesar da intimidação, nada foi suficiente para silenciá-los. Mel continuou lutando contra a segregação em escolas e Alice, em paralelo ao registro de votantes, foi também professora. Em 1969, ela deu à luz sua única filha, Rebecca, e concluiu seu primeiro romance, A terceira vida de Grange Copeland (1970), cuja primeira edição traduzida para o português brasileiro foi enviada aos associados da TAG Curadoria nos kits de maio de 2020.

Desde essa primeira publicação, Walker lançou uma obra extensa, persistente no tom combativo e em defesa das experiências das mulheres negras, o que lhe garantiu sucesso também como ensaísta e poeta. Entre livros de ensaios, não ficção, romances, coletâneas de poemas e contos, que continua publicando até hoje, sua obra mais popular ainda é A cor púrpura (1982), vencedora do National Book Award e do Pulitzer de ficção, o que a tornou a primeira mulher negra a receber este prêmio. O livro recebeu adaptação para o cinema em 1985, com direção de Steven Spielberg e atuações de Oprah Winfrey, Danny Glover e Whoopi Goldberg. Narrado pela protagonista Celie, A cor púrpura traça a trajetória de uma jovem que, partindo de uma infância traumática e violenta, passa por um despertar interior no qual, com a ajuda de outras mulheres, consegue enfim se entender como alguém desejável, forte e independente.

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