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Acertando as contas com um novo mundo

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Ainda vivemos uma época de fronteiras culturais fluidas. Apesar de Donald Trump e da ascensão da direita europeia. Apesar dos discursos ultranacionalistas caricatos e da vontade de certos políticos de nos oferecer um mundo bem menos misturado. Então não chega a ser uma surpresa o fato de muitos romances contemporâneos tematizarem questões identitárias, com ênfase em mudanças do terceiro-para-o-primeiro-mundo, conflitos familiares, dificuldade de adaptar-se e o famoso “vou ficar com dois corações para sempre”. Chimamanda Ngozi Adichie, do aclamado Americanah, é um exemplo recente dessa literatura multicultural. Mas antes dela, bem antes dela, o fenômeno Jhumpa Lahiri aconteceu no mundo literário; o primeiro livro de Lahiri, Intérprete de males, ganhou o cobiçado Pulitzer no ano 2000. Na ocasião, a escritora tinha 33 anos.

O Xará é seu primeiro romance, publicado originalmente em 2003. No livro, acompanhamos a família Ganguli por décadas, do casamento arranjado entre Ashoke e Ashima, na Índia, até a vida mais ou menos estabelecida do primeiro filho do casal, Gogol, na costa leste dos Estados Unidos. Narrativas familiares são sempre cheias de drama e reviravoltas (o que vale tanto para a ficção quanto para a realidade). Narrativas familiares que se debruçam sobre imigrantes são dez vezes mais cheias de drama e reviravoltas. Em primeiro lugar, há sempre o trauma da partida ou, no mínimo, o momento crucial em que a decisão é tomada; no caso de Ashoke Ganguli, o acidente no trem, minutos após o conselho de um passageiro, relacionado, justamente, à vida fora da Índia. Em segundo, há os primeiros momentos em um cenário estranho: sente-se saudades dos sabores e dos parentes, mas as compensações financeiras e o conforto do dia-a-dia fazem a balança pesar a favor do país desenvolvido. Em O Xará, parece evidente que Ashoke logo se adapta à cultura ocidental, enquanto sua esposa, por questões de gênero, está mais ou menos presa entre dois mundos inacessíveis; há uma espécie de cisão permanente em Ashima, muito bem exposta no início do livro, que nunca chega a se resolver de todo – daí a decisão, no desenlace, de viver meio ano em cada um de seus dois países.

Em terceiro lugar, narrativas que focam em imigrantes parecem vir sempre com uma versão carregada do conflito entre pais e filhos. Faz sentido. No caso da família Ganguli, Ashoke e Ashima representam a Índia tradicional. Foram unidos, inclusive, por um casamento arranjado (a cena em que Ashima vê e calça os sapatos do futuro marido é muito bonita). Voltar para a Índia procurar uma esposa bengali é o que todos eles fazem, e sequer um homem daquela geração cogitaria um caminho diferente desse. Para essas mulheres que, de uma hora para a outra, se veem em um país estranho, levadas por maridos que mal conhecem, restava a vida de dona de casa e futura mãe. E é precisamente quando essa segunda geração surge que se monta o conflito principal de O Xará. Crescidos em uma cultura norte-americana, as tradições não-ocidentais fazem bem pouco sentido para Gogol e Sonia, que precisam lutar então contra certas pressões familiares (casar com indianos, por exemplo). O apaziguamento com a dupla identidade só virá na vida adulta.

De qualquer forma, Gogol/Nikhil ainda tem um problema adicional: o nome. Durante seus anos de infância e adolescência, parece que o garoto atribui toda a sua inadequação ao fato de ter um nome estranho. A cena em que o professor de literatura fala à turma sobre Nikolai Gogol, o escritor russo adorado por Ashoke, é bem reveladora nesse sentido. Pela cabeça de Gogol/Nikhil, correm mil cenários de bullying extremo. O Gogol original, afinal de contas, teve uma vida peculiar e um fim deprimente. Mas nada acontece durante a aula. A rejeição parece estar dentro do menino, não no mundo externo.

Em 2009, a escritora Jhumpa Lahiri decidiu se mudar com a família para Roma. Há anos que vinha enredada em uma relação de amor com a língua italiana, dos estudos esporádicos à decisão de ler exclusivamente naquele idioma a partir de certo ponto. Dois anos atrás, Lahiri lançou um livro de não-ficção que foi totalmente escrito em italiano. A versão em inglês é uma tradução. Achei a história fascinante e maluca.

Jhumpa Lahiri, como Gogol Ganguli, nasceu no coração de uma família bengali nos Estados Unidos. Em um artigo que escreveu para o The Guardian – em italiano, é claro! –, a autora de O Xará comenta sobre o contraste entre ela e a mãe, o que vai soar bastante familiar para quem leu o romance da autora: “A recusa [da mãe] em mudar sua aparência, seus hábitos, sua atitude era sua estratégia para resistir à cultura americana, para lutar contra ela, para manter sua identidade. Quando minha mãe voltou para Calcutá, se sentiu orgulhosa do fato de que, apesar de ter passado 50 anos longe da Índia, ela parecia uma mulher que nunca havia saído de lá. Eu sou o contrário. Enquanto a recusa à mudança era a revolta da minha mãe, a insistência na transformação era a minha.”

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