Colunistas / Letícia Wierzchowski / Livros / Coleção 2017 / Ragtime, de E. L. Doctorow

Uma família, um país, um século

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Eu costumo comparar um romance exitoso a um belo espetáculo de balé. Numa história bem construída, todo o elenco de personagens dança em conjunto – mas cada um tem o seu momento solo. Ragtime – um dos melhores livros que li nos últimos tempos, um daqueles romances que espanta o sono, que engana a fome e que ilumina a alma – tem uma urdidura perfeitamente harmônica, sem jamais deixar de ser surpreendente.

E. L. Doctorow levanta um elenco de figuras incríveis, misturando personagens totalmente ficcionais – Papai, Mamãe, O Irmão Mais Novo, Coalhouse Walker Jr., o adorável Tateh e muitos outros – com vultos históricos como Henry Ford, Harry Houdini e J. P. Morgan, criando um maravilhoso horizonte narrativo; mas tão plural, com vidas e dramas tão diversos, que o leitor fica curioso para ver as amarrações que o autor fará neste palco de palavras. Como pode uma história tão ampla, um verdadeiro panorama da efervescência americana, como pode que todo este enorme corpo de baile dance junto sem perder o ritmo?

Mas Doctorow é um mestre na narrativa: os fios soltos se costuram e, na vigorosa transformação de um mundo que crescia e que se transformava constantemente, na efusão econômica dos Estados Unidos da primeira década do século XX, também os personagens de Doctorow se recriam e se reinventam ao longo da trama. Um narrador não-identificado nos conta esta ficção que começa com uma família que vive em New Rochele, New York, cujos componentes nunca recebem nomes próprios, mas são chamados simplesmente de Papai, Mamãe (a minha predileta de longe, seguida por seu Irmão Mais Novo), Vovô e Menino. Do aparentemente sereno cotidiano dessa família, Doctorow nos leva para um mundo de tensões raciais, de transformações iminentes, de sonhos, de coragens grandes e pequenas, de pobreza, arte e amor.

A vida da família começa a mudar quando Mamãe encontra um bebê negro recém-nascido no seu quintal e decide adotá-lo. A partir disso, muitas coisas acontecem, e a história avança com tal velocidade que logo chegamos a um confronto furioso capitaneado por Coalhouse Walker Jr. – o pai do bebê cuidado por Mamãe, um elegante músico negro que, humilhado por um bronco bombeiro de New Rochele, decide se vingar em grande estilo. Uma curiosidade que achei nas minhas pesquisas: o ótimo personagem de Coalhouse seria referência a uma novela alemã publicada no século XIX e escrita por Heinrich von Kleist, com drama semelhante ao do músico negro – sim, a intolerância racial é assunto que infelizmente nunca se esgota.

Ragtime, como música boa, é daqueles livros que permanecem dentro da gente. Li com fascinação, vou relê-lo em breve com um olhar mais analítico: momentos solo e piruetas narrativas que se combinam perfeitamente formando um espetáculo de palavras. Em 1998, a Modern Library elegeu-o como um dos 100 melhores romances de língua inglesa escritos no século XX. Eu não conhecia o livro mas, logo nas primeiras páginas, senti que Ragtime entrava no ranking das minhas leituras prediletas, e terminei o romance quase com pena.

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