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Entrevista: Jeferson Tenório

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O premiado escritor brasileiro Jeferson Tenório foi o curador de junho da TAG, indicando aos associados Corregidora, romance de estreia de uma das autoras mais marcantes da literatura afro-americana: Gayl Jones. Publicado há exatos 50 anos, só agora o livro chegou, finalmente, ao Brasil. A obra foi editada por ninguém mais, ninguém menos que Toni Morrison, uma entusiasta declarada da escrita da autora. Conheça mais sobre o curador do mês, autor do aclamado O avesso da pele, e leia abaixo a entrevista exclusiva de Jeferson Tenório para a revista da TAG Curadoria.

JEFERSON TENÓRIO, O CURADOR DE JUNHO DA TAG

Carioca de nascença, Jeferson Tenório é mestre em Literaturas Luso-Africanas pela UFRGS e doutor em Teoria Literária pela PUCRS. Foi professor visitante de literatura na Universidade Brown, nos Estados Unidos e, hoje, vive entre São Paulo e Porto Alegre. Seu romance O avesso da pele venceu o Jabuti em 2021 e foi traduzido em diversos países. A obra, que sofreu censura em escolas brasileiras pela descrição de cenas de sexo, aborda o racismo estrutural no Brasil pela perspectiva de um homem negro que investiga a morte do pai, vítima de violência policial. Ao tratar da sexualidade, o autor evidencia o potencial corrosivo do racismo nas relações íntimas dos personagens. O livro integra a Trilha Vozes Negras, lançada pela TAG em 2021 com sete grandes livros da literatura nacional e internacional em edições exclusivas em capa dura.

No final de 2024, Jeferson publicou um novo romance, De onde eles vêm. O protagonista, um dos primeiros estudantes a ingressar no ensino superior pela Lei de Cotas, vive sua formação como leitor e seu despertar racial em meio à hostilidade do ambiente acadêmico, movimentando reflexões sobre o direito da população negra de sonhar.

QUATRO PERGUNTAS PARA JEFERSON TENÓRIO

1- Corregidora é uma obra fundamental, que foi aclamada já na época de sua primeira publicação, há 50 anos, mas só agora está sendo publicada no Brasil. Como você entrou em contato com este livro? O que te marcou nessa história e na escrita de Gayl Jones? 

Conheci a obra recentemente, após ter lido uma entrevista de Toni Morrison em que ela elogiava a escritora. Acho o tom elegante e ao mesmo tempo coloquial, nos leva para dentro da narrativa. Há uma honestidade e uma profundidade nos personagens poucas vezes vistas na literatura mundial, além disso Gayl Jones trata a herança da escravidão com complexidade, sem maniqueísmos.

2- Esta é uma narrativa sobre traumas coletivos que atravessam gerações, como a violência de gênero e a memória da escravidão. É uma história bastante dura, em especial para leitores que tenham intersecções pessoais com esses temas. Como você lida, enquanto leitor, com livros que te mobilizam muito emocionalmente?

Corregidora é um livro que resgata a memória da escravidão, sem condescendências, sem anestesia. No entanto a violência que se apresenta não é gratuita porque vem acompanhada de uma profunda reflexão humana. Enquanto leitor, gosto de narrativas que me mobilizam, que me incomodam e que oferecem a possibilidade de aprofundamento.

3- É a segunda vez que você é curador da TAG! Em 2021, você indicou o livro Sonhos em tempo de guerra, do autor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o, um nome que era pouco conhecido pelo público brasileiro, embora fosse frequentemente cotado para o Prêmio Nobel de Literatura. Gayl Jones é outra gigante da literatura que circulou pouco por aqui. Como você vê o diálogo entre o contexto brasileiro e as questões retratadas em obras da literatura africana e afrodiaspórica?

As narrativas negras são parecidas porque viemos de um mesmo processo: diáspora e colonização. Há sempre um diálogo nessa relação, pois as questões em Corregidora falam muito sobre nós brasileiros. Sobre não esquecer os horrores da escravidão, reconhecendo que o nosso corpo e a nossa pele também são documentos que carregam uma história de luta.

4- Você publicou um novo livro no final de 2024, De onde eles vêm. Dentre muitos assuntos, é uma obra sobre a dificuldade em sustentar a proximidade com a literatura em meio a um contexto de precariedade social. Quais possibilidades as ações afirmativas abriram para que a leitura e o acesso ao conhecimento deixassem de ser um luxo no Brasil? Onde ainda precisamos avançar nesse sentido? 

De onde eles vêm toca justamente nessa questão: o direito ao encanto, à arte e à leitura. Ou seja, quem tem direito a ler? O acesso restrito aos livros é mais uma estratégia de desumanização. Creio que há outras camadas sociais que precisam ser resolvidas antes da população mais pobre chegar no livro. A desigualdade é o nosso maior problema. Ninguém quer saber de ler de barriga vazia. A leitura é um luxo, mas em alguns lugares manter-se vivo e com dignidade é que é um luxo.

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A ESTANTE DE JEFERSON TENÓRIO

Primeiro livro que li: Feliz ano novo, Rubem Fonseca. 

Livro que estou lendo: Paixão simples, Annie Ernaux.

O livro que mudou minha vida: Dom Quixote, Miguel de Cervantes.

Livro que eu gostaria de ter escrito: Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.

Último livro que me fez chorar: Quem matou meu pai, Édouard Louis.

Último livro que me fez rir: Literatura infantil, Alejandro Zambra.

Livro que dou de presente: Terra estranha, James Baldwin.

Livro que não consegui terminar: A montanha mágica, Thomas Mann.

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