Colunistas / Carol Bensimon / Livros / As três Marias, de Rachel de Queiroz / Coleção 2017

Rachel, Odorina e Alba

Coluna de Carol Bensimon sobre "As três Marias" Coluna "As três Marias" Share this post

Não sei como vocês costumam fazer, mas eu sempre deixo a leitura da revistinha da TAG para depois da leitura do livro. Quero chegar sem muita ideia do que vou ler – primeiro o romance, depois o “preenchimento” com informações históricas e biográficas que o rodeiam. Dificilmente acontece de eu não saber quem é o escritor. Mas daí a já ter tido contato com sua obra é outra história.

O livro de novembro: claro que eu sei quem foi Rachel de Queiroz. Aquela professora maravilhosa falava dela, geração de 30 e tudo o mais, mas aula de literatura no Brasil, você sabe como é: mais historiografia do que qualquer outra coisa. A gente nunca ouve nada sobre narrador, estrutura, estilo. Rachel de Queiroz, pra mim, era isso: geração de 30, retrato social, minissérie da Globo de 1994. Para não mentir, devo dizer que lemos sim um representante dessa geração, Erico Verissimo e o seu O continente. Acho que cada um acaba puxando a brasa para seu assado, em termos geográficos.

Aquela parede caiada da primeira linha de As três Marias me deu uma enganadinha de alguns segundos. “Aí vem um romance realista clássico”, pensei, com diálogos tensos, paixões fulminantes e um intenso detalhamento da paisagem. Mais algumas páginas e eu já sabia que estava errada, que devia ter tomado como uma espécie de dica o fato de que Rachel de Queiroz dedicou o livro ao poeta Manuel Bandeira, e que isso poderia indicar que aquele se tratava de um livro mais “lírico” do que propriamente de um “romanção”.

Pois justamente. Tal qual o Quase memória – embora as duas obras estejam a uma distância de 56 anos –, o encadeamento dos fatos em As três Marias se dá em um processo de livre-associação do(a) narrador(a). Não há propriamente uma trama. Há pessoas, e vida, e recortes dessa vida, sem causa ou consequências evidentes. São dois livros que se organizam por lembranças, com uma alta carga de sentimentalismo. Por isso é tão difícil descolar essas obras dos seus autores. Se não estou enganada, nem Carlos Heitor Cony nem Rachel de Queiroz tentaram negar que essas obras tivessem uma matriz fortemente autobiográfica. O posfácio, aliás, esclarece tudo: Rachel de Queiroz, Odorina Pinheiro Castelo Branco e Alba Frota eram as três Marias. Para quem gosta de verdade, aí está.

O ponto forte, na minha opinião: ver como se dava a vida no Ceará do início do século 20, uma coisa claustrofóbica para aquelas mulheres que, mesmo para além dos muros do internato, estavam atadas a uma crueza quase sem sonhos.

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