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A arte de gritar o indizível

"O grito", a famosa obra do norueguês Edvard Munch "O grito", a famosa obra do norueguês Edvard Munch Share this post

Logo nos primeiros parágrafos de O casamento somos informados de que Sabino, um pai de família conservador da classe média alta carioca, é tão magro que nunca tira a roupa na frente da mulher quando a luz está acesa. Na frente do espelho, ao se ver sozinho, sim. Nessas horas, estuda-se com desgosto: lá estão “as canelas finas, diáfanas, o peito cavado, as costelas de Cristo”. Não é à toa que seus colegas do tempo de estudante o chamavam de “bunda seca”.

Já se percebe que nós, leitores, também vemos aquilo que a mulher de Sabino não pode ver. Na verdade, vemos muito mais. À medida que ganhamos acesso aos pensamentos do atormentado personagem, cuja filha Glorinha vai se casar no dia seguinte, fica claro que o autor não deixará nada, nenhum aspecto da história, na penumbra das sugestões e sutilezas. Não é o seu estilo.

O que transformou Nelson Rodrigues no maior nome do teatro brasileiro foi justamente seu modo único de construir histórias de tom farsesco que falam em voz alta e até gritam o que costuma ser considerado de bom tom silenciar, quando não aquilo que é simplesmente indizível mesmo. Em suas peças, a violência, as iniquidades e as perversões que dormem no subsolo das relações humanas em geral – e das relações familiares em particular – vêm à tona e explodem em cena aberta.

Sentimentos e desejos que não confessamos nem a nós mesmos, e que normalmente só se deixam entrever por trás dos véus do sonho, são expostos à crueza dos holofotes, um após o outro. O efeito é frequentemente trágico, sem deixar de ser também cômico. No inconfundível universo rodriguiano, a verossimilhança cambaleia o tempo todo, mas o realismo dos diálogos captados por um ouvido perfeito nos lembra que aquele mundo meio maluco, sórdido e exaltado, não fica assim tão distante do nosso. Talvez até, pensando bem, seja exatamente o nosso, apenas iluminado por uma sensibilidade peculiar.

No teatro, o efeito dessa equação artística é forte, mas talvez mais fácil de digerir. O palco, afinal, é aquele reino de faz-de-conta em que um cenário pode ser recortado em papelão ou rabiscado com giz. Crônicas e folhetins, gêneros em que Nelson também era mestre (com ou sem pseudônimo), tinham o álibi da leveza comercial e do entretenimento picante. O romance é outra história.

Esse gênero “sério” e realista por excelência costuma vir acompanhado da expectativa da sondagem social ou do mergulho psicológico profundo. Isso pode ter contribuído para tornar mais escandaloso ainda o único romance propriamente dito que Nelson escreveu. Certamente ajuda a explicar o episódio da proibição do livro pela ditadura militar logo após sua publicação, em 1966, cortando em pleno voo a carreira comercial de um romance que tinha toda a pinta de best-seller.

O autor era o de sempre, fiel a si mesmo como poucos. A leitura é que era diferente. De todo modo, os ridículos argumentos do censor (“atinge a instituição do casamento”, “atenta contra a organização da família”) envelheceram mal demais. Já O casamento continua incômodo, como Nelson Rodrigues queria que fosse.

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