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O manancial da infância

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A infância é um manancial de histórias para qualquer escritor, inclusive os que só se ocupam de personagens adultos. Há até quem diga que é nas experiências de criança – quase sempre transfiguradas pela imaginação – que os ficcionistas encontram suas obsessões temáticas mais profundas e a totalidade da matéria-prima de que necessitam para escrever.

É um argumento de peso. Sentidas com a força incomparável da primeira vez e sem os amortecedores que a maturidade inventa, encontram-se na infância as versões mais puras das emoções que vão compor nossos dramas de gente grande até o fim dos tempos: amor, ódio, alegria, tristeza, perda, abandono, traição, ternura, crueldade.

Por meio das memórias de um narrador mais velho, visitar a infância é meio caminho andado para histórias cativantes. O problema é que acessar diretamente esse reservatório – fazer das próprias crianças as protagonistas e as narradoras de suas aventuras – está longe de ser tarefa simples. A dificuldade é sobretudo técnica: crianças não têm nem o vocabulário nem a visão de mundo que a ficção exige dos narradores para que suas histórias ganhem corpo e reverberação, tanto na primeira quanto na terceira pessoa. Um tom falsificado está sempre à espreita.

O mundo infantil que o irlandês Roddy Doyle recria em Paddy Clarke Ha Ha Ha é uma proeza que justifica com folga o sucesso do livro, premiado com o Booker em 1993. Ao fazer de seu narrador um garoto de dez anos, morador de um bairro de classe média baixa de Dublin em fins dos anos 1960, o autor se mete voluntariamente numa camisa de força. Paddy fala como um menino da sua idade. Muda de ideia e de assunto como um irrequieto menino da sua idade. E não entende bem – embora quase sempre finja que sim – o que está acontecendo no livro, enquanto corre em ziguezague em sua rotina de habitante infantil de um mundo analógico: escola repressora, brincadeiras violentas na rua, brigas com o irmão mais novo, medo e confusão nas vigílias em que entreouve as brigas dos pais no andar de baixo.

Há momentos em que Paddy confessa suas deficiências de compreensão, como quando, exercendo com gloriosa inconsciência infantil um sadismo socioeconômico que pesca no ar, zomba de um amigo cuja mãe é obrigada a trabalhar numa fábrica de chocolate para completar a renda insuficiente do marido:

– Sua mãe trabalha na Cadbury’s só porque precisa.
Ele não entendeu o que eu queria dizer. Eu também não.

Como construir um romance com um narrador assim, dono de uma consciência que é um queijo suíço e de um quadro de valores morais gelatinoso, por estarem ambos em formação? Como tensionar o arco da história, fazê-la crescer? A resposta de Doyle é simples: convidando o leitor a preencher as lacunas e, pouco a pouco, crescer junto com Paddy em sua compreensão da história.

Isso faz com que o romance seja de leitura exigente em muitos momentos, arriscando-se a perder o leitor que, impaciente, acredite estar patinando no mesmo lugar. O que ameniza essa impressão são os efeitos humorísticos que o autor consegue tirar de sua construção cheia de elipses, muitos deles inesquecíveis, enquanto o drama familiar pesado que lentamente se insinua nas brechas não explode de forma também inesquecível no fim.

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