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Um romance de Nelson

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Por Guto Leite

Relativamente invisível entre a produção do maior dramaturgo brasileiro e do cronista que vem recebendo cada vez mais atenção da crítica, O casamento (1966) é o último e mais bem-acabado romance de Nelson Rodrigues.

Lá estão as características que deram um lugar destacado ao autor no cânone da literatura brasileira: linguagem ágil e precisa, além de uma representação verossímil das personagens, tudo azeitado nas redações de jornal e já então celebrado nas peças míticas e nas tragédias cariocas; ironia e sarcasmo em doses generosas – talvez a maior ironia do livro seja Sabino se entregar à polícia justamente pelo crime que não cometeu –; uma coleção de frases definitivas, como “O homem de bem é o gângster da virtude” ou “Tem sempre uma pele de quem lavou o rosto há dez minutos”; uma estrutura de melodrama que ancora sua força no popular, mas indica os limites do mundo civilizado nas suas mudanças bruscas de alto a baixo – ou é virgem ou é prostituta, ou é santo ou é canalha etc. – e certa introjeção do modelo da tragédia via psicanálise, que sugere, em síntese, que estamos todos a priori condenados por nossos desejos.

O casamento é centrado em Sabino, pai de família que está casando sua filha mais nova e preferida, Glorinha. Em meio a um dos ápices da vida social burguesa, logo se vê que há mais naquela família do que poderia imaginar quem visse as fotos do casório na revista Manchete. O pai, adúltero e apaixonado pela filha, tanto que tenta agarrá-la num dos capítulos finais do livro, tinha estuprado Silene, sua sobrinha epilética, em meio a uma crise de saúde da menina. A mãe, Eudóxia, segundo Glorinha, tinha tentado beijar a filha, e ainda acobertava as condutas do marido. Glorinha, além de fumar escondido, tem histórico de “namoradeira” e mentia à família sobre sua virgindade. Dirce, Marília e Arlete, as outras irmãs, chantageiam o pai para dar-lhes dinheiro porque uma delas tinha testemunhado o estupro de Silene.

Em torno desse núcleo familiar, orbitam Dr. Camarinha, culpado por ter brigado com o filho às vésperas da morte deste, a esposa, histérica, e Antônio Carlos, o filho, michê, lunático e abusador de mulheres. Há ainda um terceiro grupo formado por D. Noêmia, secretária de Sabino que se deita com o chefe, Xavier, amante de Noêmia, marido de uma mulher leprosa, Sandra, colega de Noêmia, e Saraiva, seu marido. Por fim, Monsenhor, um padre muito pouco ortodoxo e que tem ação decisiva nos rumos do romance por sua influência em Sabino. Logo se vê que não dá pra chamar nenhuma personagem do romance pra almoçar no domingo, com a família – salvo Téofilo, noivo de Glorinha, cujo crime, para Nelson, é ser “pederasta”, mas que mostra fibra e firmeza de conduta todo o tempo, chegando a rasgar o cheque ofertado pelo sogro.

Esta é uma primeira particularidade do romance. Embora haja um vertiginoso desenrolar do enredo, que reproduz as vésperas do casório, em meio a flashbacks internos aos capítulos ou mesmo maiores, entre o capítulo 11 e o 19, por exemplo, o romance se movimenta mesmo é por um contínuo desmascarar das personagens. Ninguém fica sem seu pecado e alguns, como Sabino, com o passar das páginas, mostra ter um rosário inteiro de eventos vexaminosos. Nada imprevisto à luz da estética de Nelson, que resumi logo na abertura do texto. No entanto, cabe notar que esse dedo em riste, acusatório, apontando os desvios, desvela uma acusação geral da distância entre o que seria uma família ideal e como, de fato, são as famílias na prática. Tal como se dissesse, em maior espectro e de outros modos, o que afirma um segundo livro importante do período, O vampiro de Curitiba (1965), de Dalton Trevisan: “no fundo de cada filho de família dorme um vampiro”. Na leitura do romance, como nas peças, o horizonte é de identificação malquista e constrangedora, num gesto que moraliza pelo riso nervoso.

Disso deriva um segundo ponto: quem é o narrador de O casamento? O nó é intrincado. Normalmente se define drama como o narrar pela ação, enquanto o romance o faz pela narração. No entanto, são várias as instâncias que fazem o papel de narrador nos dramas de Nelson Rodrigues: o coro, figuras externas ao enredo – como o Speaker, em Álbum de família (1946) – ou até as rubricas, no caso de a peça ser lida. Neste romance, o narrador funciona quase como aquele do teatro, ou seja, como uma instância que está ali para pôr os personagens em diálogo, ao mesmo tempo em que tece comentários ácidos, investiga a subjetividade das personagens, descreve sucintamente os cenários etc. A sensação forte é de que a voz e a perspectiva que organizam O casamento são análogas à voz e a perspectiva que organizam os dramas, e talvez nisso resida um dos acertos centrais deste livro.

Poderíamos falar, assim, de uma consciência dramática regendo as peças e uma consciência análoga, épica ou narrativa, regendo este romance (indo um pouco adiante, também poderíamos pensar em uma consciência cronística regendo as crônicas). Todas elas conectadas mais ou menos diretamente – uma persona, talvez, categoria da crônica – à inteligência refinada e controversa de Nelson Rodrigues. O que procuro dizer é que não dá para pensar na literatura do autor fora de uma proposta de incidir agudamente nas questões polêmicas da sociedade brasileira. Este traço, mais sua defesa constante de autonomia em relação às opiniões correntes, faz com que seja tão importante sua literatura nestes tempos de esmaecimento das unidades individuais.

Sobre Guto Leite: Professor e escritor, tem quatro livros de poesia publicados. Grande apreciador de Nelson Rodrigues.

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