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Entrevista: Luiz Antonio de Assis Brasil

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“A consciência brasileira, em grande parte, está impermeável à arte”

Inventor de escritores? Não é para tanto, diz o curador de novembro, escritor responsável por lapidar grandes talentos da literatura brasileira em sua concorrida oficina anual em Porto Alegre. Romancista premiado, músico e professor, Assis – como é carinhosamente chamado por leitores e alunos – é partidário da leveza, algo que se vê tanto em sua prosa quanto em sua curadoria para a TAG. Nesta entrevista, ele mantém o ar leve ao conversar conosco sobre a música das frases, sobre os efeitos da pandemia na ficção brasileira e sobre a democratização da leitura.

TAG — Queria que você começasse contando como foi que se descobriu escritor.

Luiz Antonio de Assis Brasil – Penso que foi quando ganhei um concurso escolar – estadual – aos 11 anos, cujo tema era o cinquentenário da aviação. Mas, depois disso, me interessei por muitas outras coisas, entre elas a música. Depois, a literatura – daí “de verdade”, já bem entrado nos 20 anos, quando escrevi um romance cheio de problemas, mas que foi um bom impulso para confirmar meu desejo de ser escritor. Um prêmio aqui, outro ali, e assim foi indo.

Entre se descobrir escritor e ser estudado na aula de Literatura (lembro de ler Concerto Campestre para prestar vestibular, por exemplo), quando foi que você descobriu que queria ensinar outros escritores? Você pode contar um pouco da história da oficina de criação literária?

Tudo decorreu de uma conjunção de fatores, pouco controláveis, mas que, enfim, aceitei como propícios: em 1985 eu já era professor havia 10 anos e tinha três ou quatro romances publicados. Portanto: já sabia dar aulas, e, bom ou mau, era escritor. Tive notícias das oficinas americanas e, tempos de pré-internet, pedia via postal os currículos, os programas etc., e quando me responderam, eu já começara a trabalhar, criando uma metodologia e conteúdos. Pura intuição… Minha vontade era passar aos iniciantes algo da minha experiência, mas mais das minhas dúvidas e perplexidades. Sentia-me bem em ensinar, por exemplo, como se constrói um bom diálogo, como se faz uma boa descrição etc.

E o que você acha da alcunha de “inventor de escritores”?

Como expressão, é ótima, encanto-me ao ouvi-la, mas é totalmente descabida. Criou-se essa lenda, não sei de onde. O máximo que eu aceitaria seria “reunidor de escritores”, pois é isso que eu faço. Eu os reúno e proponho temas para discussão, e criamos em conjunto. O resto é feito pelo tempo.

Como você acha que a pandemia vai afetar a ficção brasileira?

Pelo que percebo, poucos conseguem alienar-se das circunstâncias externas e concentrar-se em algo seu, pessoal, como é a ficção. Logo no início da pandemia, surgiu um movimento na internet pedindo textos ficcionais que tivessem a pandemia como tema; mas isso durou pouco tempo. O pessoal caiu na realidade.

O que O dia em que a poesia derrotou um ditador significou para você como leitor? Quais foram seus pensamentos na hora de indicá-lo para a TAG?

Leveza e descomplicação para tratar de um assunto tão doloroso como as ditaduras latino-americanas. E o clássico otimismo do Skármeta. E seu senso de humor. Há cenas de puro riso, como aquela em que um sujeito maluco invade a casa do publicitário e quer transformar uma valsa de Strauss em slogan de campanha pelo “Não”, no plebiscito convocado pelo Pinochet.

Kit TAG Curadoria de novembro/2020
Kit TAG Curadoria de novembro/2020

Tendo sido violoncelista e, imagino, ainda sendo músico, praticante ou não, fico curiosa: como você viu a questão da criação musical no livro? Essa inquietação em relação à música aparece também na sua obra. Como é traduzir a música para a literatura?

Sim, esse livro tem inúmeras alusões à música, que, em certo sentido, é uma espécie de linha condutora. Pensando abstratamente, a música guarda duas relações com o texto ficcional: por um lado, ela pode ser tema – central ou secundário – e, por outro, entendida enquanto ritmo, pode ser uma busca para o escritor. O ritmo da frase, se é que me faço entender. No final da minha novela O pintor de retratos, por exemplo, há isto: “e com olhos de sábio, olhos que tanto viram e tanto amaram, percorreu a solidez terrestre dos campos e o devaneio infinito das nuvens”. Não sei se é boa literatura, mas eu quis que o leitor ficasse com esse ritmo nos ouvidos quando fechasse o livro.

O livro de Skármeta mostra a superação da ditadura pelo humanismo, pelo desejo de liberdade. É inevitável trazer alguns dos sentimentos de cerceamento vividos pelos personagens, em especial no que diz respeito à cultura, para a nossa realidade. Como você vê essa situação?

Esse livro poderia ser trazido para o Brasil de hoje, é claro, e por razões óbvias; entretanto, a consciência atual brasileira, em grande parte, está mesmerizada por slogans e impermeável à arte, ao pensamento e à sensibilidade, brutalizada por uma crescente verticalização do poder. O quadro é bem diferente do Chile da época do romance, em que havia ditadura feroz, mas, em contrapartida, um poderoso pensamento crítico, capaz até de ações épicas.

Por último: você vê muitos livros sendo escritos e lançados. De novo, em tempos como os nossos, como democratizar o acesso à leitura?

O papel do Estado é imprescindível nessa democratização, pois, com o poder econômico que detém, possui condições para fazer com que o livro chegue ao maior número de pessoas. Outro papel relevante deve ser dado às bibliotecas, especialmente as escolares, através da ampliação de seus acervos e da própria construção de novas unidades. Tudo isso, no contexto dos gastos públicos, é uma miséria. Basta a vontade de fazer. E isso cada vez está mais longe. Admiro iniciativas privadas como a da TAG, que consegue oferecer obras escolhidas a preço competitivo.

A estante de Luiz Antonio de Assis Brasil

O primeiro livro que li: Os melhores contos de fadas chineses, aí pelos oito anos.

O livro que estou lendo: Villa Amalia, de Pascal Quignard

O livro que eu gostaria de ter escrito: Breve romance de sonho, do Arthur Schnitzler

O último livro que me fez chorar: O perdido, de Hans-Ulrich Treichel

O último livro que me fez rir: O perdido, de Hans-Ulrich Treichel (sim, o mesmo…)

O livro que eu não consegui terminar: São várias dezenas… Mas para falar num só: Notre-Dame de Paris, de Victor Hugo.

O livro que eu dou de presente: A fera na selva, de Henry James

O livro que mudou a minha vida: Ai, muito forte. Mas o livro que me impressionou na juventude foi O apanhador no campo de centeio. Mudou minha vida por três ou quatro meses.

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