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Entrevista: Javier Cercas, autor de “A velocidade da luz”

Javier Cercas Share this post

Um dos escritores espanhóis mais celebrados da contemporaneidade, traduzido para trinta línguas, Javier Cercas é reconhecido por explorar de maneira singular os limites entre ficção e realidade e por renovar a produção literária em seu país. O ponto de virada de sua carreira veio com Soldados de Salamina (2001), romance que elevou Cercas ao grupo dos grandes escritores da atualidade. Hoje um reconhecido best-seller adaptado cinematograficamente, a obra lhe trouxe fama, dinheiro e também marcou o estilo que desenvolveria ao longo dos anos: um complexo diálogo entre o histórico e o fictício, personagens reais ficcionalizados e um narrador homônimo que se confunde com o próprio autor.

O peso da fama foi sentido na mesma intensidade: além da pressão externa (por um tempo, virou o alvo preferido de duvidosos escândalos divulgados por jornais), Cercas precisou lidar com as próprias inseguranças como escritor. Nesse turbilhão de angústias, encontrou nas lembranças de uma experiência nos Estados Unidos um personagem controverso e uma história que lhe permitiria exorcizar o sofrimento e seguir em frente. O resultado foi A velocidade da luz, primeiro livro enviado pela TAG Curadoria em 2019 por indicação do escritor brasileiro João Anzanello Carrascoza.

No final dos anos 1980, na Espanha, o narrador da obra é casualmente convidado por um antigo professor para dar aulas de espanhol em Urbana, cidadezinha nos Estados Unidos. Movido por sua vontade de se tornar um escritor e encontrar inspiração para seu primeiro romance, ele aceita o convite. Por um acaso ainda maior – ou pelo menos é o que ele acredita –, lá ele passa a dividir o quarto com um homem soturno: seu nome é Rodney Falk, um veterano da guerra do Vietnã. A partir do encontro, os personagens dão início a uma relação que começa bastante fria, mas que vai se desenvolvendo quando os dois descobrem a literatura como paixão em comum.

Cercas, que esteve no Brasil no final de 2018 e visitou nossa sede na ocasião, concedeu entrevista exclusiva à TAG sobre o romance:

TAG – A respeito de outros títulos de sua obra, você costuma afirmar que a escrita partiu da necessidade de compreender um problema. Qual questionamento o levou a escrever A velocidade da luz?

Javier Cercas – Eu acho que, desde o início, estava tentando entender uma imagem. Em Urbana, Illinois, onde o romance acontece, tive um parceiro que esteve na guerra no Vietnã e que às vezes me contava sobre sua terrível experiência bélica. E um dia, encontrei-o sentado em um banco, vendo algumas crianças brincarem. Eu fiquei olhando para ele de longe por algum tempo, e me perguntei o que aquele homem que tinha visto horrores na guerra estava pensando, por que ele estava lá, fascinado por aquela cena bucólica e inofensiva. Bem, essa imagem está no livro e talvez seja a sua semente. Quanto ao resto, no romance também tentei entender o que significa o sucesso literário e, acima de tudo, tentei digeri-lo.

Em um momento do livro, Rodney Falk sentencia: “Falar muito de si mesmo é a melhor maneira de se esconder” e, em seguida, “num romance, o que não se conta é sempre mais importante do que o que se conta”. Você concorda com ele?

Cercas – Absolutamente. A segunda frase é uma das primeiras regras de um romance, a arte da elipse, que por sua vez é a arte de ceder um espaço ao leitor para que construa o livro à sua própria maneira. Quanto ao primeiro, bem, em meus livros há sempre um personagem que se parece muito comigo, mas esse não sou eu, mas uma máscara que eu coloco para dizer o que eu quero dizer. Nesse sentido, me escondo quando falo de mim mesmo, da minha própria pessoa. Mas, por outro lado, lembre-se que “pessoa” significa “máscara” em latim, e que a máscara é o que nos esconde, mas acima de tudo o que nos revela (se eu colocar uma máscara de pirata, estou me escondendo atrás dela, mas também estou revelando meu humor briguento e bélico). No fundo, esse Javier Cercas dos meus livros, embora às vezes muito longe do que eu sou, talvez seja mais eu do que eu mesmo, uma versão mais refinada de mim, pela mesma razão pela qual Proust dizia que o verdadeiro eu do escritor não é o eu social, mas o eu que se manifesta nos livros. Talvez isso seja a literatura: a arte de revelar enquanto se esconde e de esconder enquanto se revela.

Como foi para você se relacionar com o sucesso de Soldados de Salamina (2001) e dar continuidade à sua carreira literária?

Cercas – Não foi fácil. De fato, em algum momento achei que não iria mais escrever. Na verdade, talvez a principal razão para escrever A velocidade da luz fosse provar para mim mesmo que, apesar do sucesso, eu ainda era um escritor e podia continuar escrevendo. Enfim, acho que, absurdamente, me senti culpado, como se tivesse feito algo errado. Por um lado, esse foi o fruto da minha total inexperiência da vida literária (sempre quis ser escritor, mas mal conhecia o mundo literário); mas, por outro lado, após um grande sucesso, muitos escritores deixam de escrever, ou pelo menos deixam de publicar romances. Na América Latina, há o caso de Juan Rulfo. Na América do Norte, Salinger. Na Espanha, Rafael Sánchez Ferlosio. O sucesso pode destruir pessoas e, de fato, isso acontece constantemente. É algo que normalmente não é dito, talvez porque não se saiba como dizer, mas é assim. Eu não queria que o sucesso me destruísse.

Podemos dizer que o romance é sobre um anti herói? Por quê?

Cercas – Porque ele é incapaz de dizer “não” quando deveria ter feito isso. Eu acho que muitos dos meus livros são em grande parte uma exploração do heroísmo, e os heróis dos meus livros são tipos que, quando tudo conspira para se dizer “sim”, dizem “não” (nesse sentido eles são uma variante do “homem rebelde”, de Camus, ou do “inimigo do povo”, de Ibsen). O problema de Rodney é que ele é incapaz de dizer “não” e acaba pagando por isso. Claro, dizendo “não” quando todos ao seu redor dizem que “sim” é muito difícil – talvez a coisa mais difícil do mundo – mas ninguém disse que ser um herói é fácil. Caso contrário, dizer “não” quando o mundo inteiro diz “sim” não faz de ninguém um herói, mas é a primeira condição para sê-lo.

1 comment

André Cabral 30 de janeiro de 2019 Responder

Saudações, não e considero um leitor mas estou determinado a sê-lo e por isso assinei a TAG curadoria.
A velocidade da luz foi uma agradável experiência inicial, realmente os dois personagens principais são intrigantes e o mistério fez com que eu lesse o livro em praticamente uma semana em dias espaçados. Com certeza o que mais me chamou atenção foi a inteligência de Rodney diante dos anseios do amigo, bem como o a trajetória do escritor desde o início da trama. que se delineia de forma bem fluida ao longo do tempo. A natureza humana diante das dificuldades, a perseguição dos sonhos, as consequências do sucesso, a reação diante da maior tragédia, a condução de conflitos internos foram muito interessantes e promoveram muitas reflexões importantes.
Parabéns ao Autor!

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