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Entrevista com Carol Bensimon

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Quase dois anos depois de indicar ao clube o romance A praça do diamante (1962), da catalã Mercè Rodoreda, a escritora Carol Bensimon retorna às páginas da TAG como autora do livro do mês. Com a escolha de Noemi Jaffe, ela se junta ao espanhol Javier Cercas e ao irlandês Roddy Doyle no seleto grupo que já ocupou as duas posições (curador e autor do mês) na história do clube – além de ter feito o caminho inverso dos outros dois, fica com ela o posto de primeira brasileira a figurar nessa lista especial.

Tradutora, romancista e contista, Bensimon nasceu em Porto Alegre em 1982 e é destaque no cenário literário brasileiro há mais de uma década, sendo um dos principais nomes da nova geração de escritores contemporâneos. Em 2012, foi incluída no volume Os melhores jovens escritores brasileiros da revista Granta. Além de escrever e traduzir obras de ficção, contribuiu com contos e ensaios para periódicos como o Estado de S. Paulo, O Globo, Folha de S. Paulo, Superinteressante, Piauí e para a editora norte-americana McSweeney’s, trabalhou em roteiros para audiovisual, foi colunista do Blog da Companhia e já colaborou em algumas edições da revista da TAG na seção Leia depois de ler.

Em 2018, Bensimon conquistou o Prêmio Jabuti de melhor romance com sua publicação mais recente, O clube dos jardineiros de fumaça (2017), obra que cruza personagens históricos e ficcionais utilizando como pano de fundo o tema do cultivo e comércio de maconha na Califórnia, onde a planta recentemente foi legalizada. Além de ter descoberto em Mendocino a inspiração literária que deu origem a Jardineiros, Carol encontrou na calmaria do pequeno condado o seu lar, onde hoje reside.

TAG – Em A praça do diamante, livro que você indicou para a TAG em dezembro de 2017, temos uma personagem muito forte, a Colometa. Desde as últimas décadas, percebemos um movimento de criar personagens mulheres com mais complexidade, como as do seu livro. Como a ausência e a crescente presença de personagens assim na literatura influenciou sua vida como leitora e escritora?

Carol Bensimon – Até pouco tempo atrás, a própria sociedade não dava muito espaço para essa complexidade feminina aparecer na vida real, que dirá então na literatura. Na minha vida de leitora, é verdade que cruzei com muito mais personagens homens do que mulheres. É inevitável que isso aconteça porque sempre houve mais homens escrevendo, mas isso nunca me desencorajou. Desde cedo quis escrever ficção. Fico feliz agora que cada vez mais mulheres estejam escrevendo, e que a consequência disso seja a construção de personagens femininas com mais nuances. É muito bom poder contribuir com essa mudança.

A literatura que retrata a população LGBTQIA+ tem crescido bastante nesses últimos anos, tanto em obras contemporâneas quanto em mais antigas, resgatadas com novas edições e traduções. Como você enxerga esse movimento?

Carol – Isso é muito recente, pelo menos no Brasil. Acho que aconteceu de forma mais intensa nos últimos três ou quatro anos, e é extremamente positivo para a diversidade da nossa literatura. Mas, quando Todos nós adorávamos caubóis Carol Bensimon Entrevista com A indicação do mês 15 foi publicado, em 2013, o cenário era outro. De toda forma, quando escrevo um livro, não estou pensando em nada disso, quero dizer, em como a narrativa se encaixa no contexto atual, no que pode haver de político nela, etc. Acredito que a escrita de um romance deve partir de um desejo que vem de dentro, não de fora. Minha vontade era apenas retratar uma relação ambígua entre duas meninas, cheia de desencontros e hesitações, temperada com o frescor e a incerteza dos vinte e poucos anos.

Como foi escrever Todos nós adorávamos caubóis? Quais foram as suas inspirações? Qual era a sua rotina de escrita?

Carol – Foi intenso. Eu tinha voltado de um período de dois anos em Paris, onde fui fazer um doutorado que não terminei. Queria usar essa experiência de sair do país de alguma maneira, mas, ao mesmo tempo, também tinha vontade de explorar a paisagem do meu estado natal. Então fui fazer algumas viagens de carro como pesquisa para o futuro romance. Acho que, no livro, o que vemos é tanto uma conexão quanto uma desconexão das personagens em relação a essa paisagem e essa cultura. O entorno é, ao mesmo tempo, familiar e completamente estranho. E aquela jornada, para Cora, significa essencialmente uma chance de se reaproximar da Julia. Minhas inspirações da vida real foram essas: cenários carregados de certa melancolia, uma cidadezinha parada no tempo nos pampas gaúchos e algumas relações confusas que vivi na época da faculdade. Não lembro o que estava lendo quando escrevi o livro, então não poderia dizer o que me inspirou em termos de literatura. Mas lembro que escutava muito Radio Dept., Wild Nothing e Craft Spells. Foram bandas que me ajudaram a construir a atmosfera do livro. Quanto à minha rotina de escrita, sou sempre muito disciplinada quando estou trabalhando em um romance. Acordo cedo, faço meu café da manhã, escrevo, paro para almoçar, e continuo escrevendo até o fim da tarde.

Thelma & Louise é uma forte referência para seu romance. De que forma o cinema dialoga com o livro?

Carol – Vi muitos road movies clássicos no início do projeto do livro, antes de propriamente sentar para escrever. E Thelma & Louise sempre foi um favorito desde a primeira vez que assisti ao filme, nos anos 90. É também um dos únicos do gênero que coloca duas mulheres no centro da trama. Sou bastante influenciada pelo cinema de modo geral. Acho que minha literatura é bem visual, sinto que estou criando imagens com palavras quando escrevo, e costumo pensar que o próprio processo de escrita, o próprio encadeamento das frases em um texto literário, pode ser muito parecido com o processo de montagem do cinema.

“Acredito que Caubóis é um romance sobre fazer o que se quer, independente da opinião dos outros.”

Pergunta inevitável: o quanto de Carol há em Cora e o quanto de Carol há em Julia?

Carol – Essa é difícil! Eu não escrevo histórias autobiográficas. Até teria coisas bem dramáticas e imprevisíveis para contar se escrevesse, mas não me sentiria à vontade para fazer isso e, além do mais, gosto da liberdade que a ficção dá. Estou no livro de uma maneira mais indireta. Criei a história das duas personagens baseada em muitos recortes de experiências e sensações. Uma estudante de moda que encontrei umas três vezes em Paris, um passeio por um bairro específico, lembranças de pessoas que conheci na faculdade, uma estadia em um hotel de Bagé e outro em São Francisco de Paula em contextos completamente diferentes, enfim, há um mosaico aí, e as peças aos poucos vão se encaixando como na escrita de qualquer livro de ficção. Mas eu diria que há mais de Cora em mim do que de Julia simplesmente porque a Cora vem de um contexto urbano, como eu. Também porque tem mais certezas sobre sua sexualidade.

Em uma recente troca com Caetano Galindo vocês tecem uma longa e pertinente discussão sobre questões ligadas ao uso da língua. O quanto essa experiência de morar fora tem impactado no modo como você escreve e enxerga a literatura contemporânea brasileira?

Carol – Acho que eram questões que eu já me colocava antes de mudar de país. Nunca me senti “herdeira” da tradição literária brasileira. Leio muitos dos meus contemporâneos, isso sim, mas pouca coisa das gerações anteriores. Então percebi que essa distância que eu sentia se explicava sobretudo pelo uso da linguagem. O que estávamos apontando nessa discussão, eu e o Caetano Galindo, é que, até pouco tempo atrás, a distância entre o português falado e o português “literário” era abissal. E isso me incomodava. Pego alguns livros antigos e eles me soam beletristas, artificiais. Meu projeto de literatura sempre foi o contrário disso. Sei que essa não é uma discussão nova, mas, em todo o caso, o nó não me parece resolvido. Segundo o Galindo, minha geração está tendo que inventar uma nova linguagem literária. Pode soar pretensioso dizer isso, mas, ei, foi o Galindo quem disse, não eu!

Muitas pessoas falam em “encontrar seu lugar no mundo”. Você acredita que Mendocino é o seu lugar? Como é viver (e escrever) na Califórnia?

Carol – Hoje posso afirmar que é. Amanhã, quem sabe o que vai acontecer? Senti uma atração muito forte por esse lugar desde a primeira vez em que pisei aqui, e isso foi se intensificando. Quando terminei de escrever O clube dos jardineiros de fumaça, depois de duas temporadas em Mendocino, estava oficialmente apaixonada. Acho que eu não poderia voltar para a mesma vida que eu tinha em Porto Alegre depois disso, e me mudar de cidade parecia insuficiente, como se todas as cidades fossem um pouco parecidas, sabe? O que eu precisava mesmo era me afastar dessa lógica urbana. É um privilégio viver aqui, sem dúvida. A natureza é muito impressionante e me toca em algum ponto que até então eu desconhecia. O silêncio para escrever também é maravilhoso.

Qual o seu recado para os 30 mil associados que irão ler seu romance pela primeira vez?

Carol – Tenho muito carinho por esse livro. Espero que vocês sintam que estão viajando junto com a Cora e a Julia. Quando leitores me escrevem dizendo “você me deixou com muita vontade de viajar!”, acho que esse é o maior elogio que posso receber. É um livro com boas energias. Sei que sou suspeita para falar, mas, enfim, acredito que é um romance sobre fazer o que se quer, independentemente da opinião dos outros. A vida é curta.

A estante de Carol Bensimon

O primeiro livro que li: O último mamífero do Martinelli, de Marcos Rey

O livro que estou lendo: Lá não existe lá, de Tommy Orange

O livro que eu gostaria de ter escrito: A Fugitiva, de Alice Munro

O último livro que me fez chorar: Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro

O último livro que me fez rir: Less, de Andrew Sean Greer

O livro que eu não consegui terminar: Ulisses, de James Joyce

O livro que eu dou de presente: Uma casa do fim do mundo, de Michael Cunningham

O livro que mudou a minha vida: O Som e a fúria, de William Faulkner, e Três tristes tigres, de Guillermo Cabrera Infante

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