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Entrevista: Noemi Jaffe e “Todos nós adorávamos caubóis”

Noemi Jaffe Share this post

A escritora, professora e crítica literária Noemi Jaffe é nossa curadora do mês de agosto. Já publicou 11 livros entre obras didáticas, poesia, contos e um romance – embora seu grande prazer seja promover a anti-rotulagem, confundindo classificações com fascinantes obras híbridas. Doutora em literatura brasileira pela USP, Jaffe ministra cursos de escrita criativa e literatura desde 2007 e atualmente é coordenadora do espaço Escrevedeira, centro cultural na zona oeste de São Paulo criado em 2016 que oferece cursos, oficinas e debates relacionados à escrita e à literatura. Quando não está lecionando e projetando novos livros, escreve para a Folha de S. Paulo e para o Blog da Companhia.

Ela indicou o livro Todos nós adorávamos caubóis, de Carol Bensimon, aos associados do clube. Leia a entrevista com a curadora:

TAG – Você tem uma voz bem ativa no Twitter. Como enxerga os papéis que as redes sociais assumem hoje na difusão das informações?

Noemi Jaffe – Eu posto, principalmente, etimologias no Twitter. Vejo esse papel das redes com algum prazer e muito receio. Sigo algumas pessoas, jornais e instituições em quem confio muito, que me informam, instruem e alegram por razões diferentes. Muitos também me emocionam e inspiram. Mas a grande maioria, na minha opinião, faz da rede um espelho deturpado de si mesmo e da realidade; um canal de disseminação de paixões doentes e inócuas ou um depósito de fake news. Parece que a facilidade que as redes representam destampou um buraco de recalques muito difícil de processar e reparar.

“Carol Bensimon tem uma capacidade muito grande e singular de dar importância aos detalhes mínimos que compõem uma paisagem e um personagem. Isso faz com que eles soem muito vívidos e dinâmicos, num ritmo narrativo que acompanha suas ações.”

Quais as perspectivas para a literatura contemporânea brasileira?

Noemi – Em termos de produção, vejo boas perspectivas. Acho que nos últimos anos houve saltos na produção romanesca, mas principalmente na poesia, com excelentes poetas, especialmente mulheres, em todas as regiões do país. Vejo coisas boas acontecendo nas periferias, em editoras alternativas e na internet também, além dos cursos de escrita (livres e formais) que vêm aumentando e se diversificando no país. Mas em termos editoriais, todos sabemos da crise pela qual o Brasil está passando e, com o governo atual, interessado em destruir as universidades e a educação no país, vejo cada vez menos chances de que isso melhore.

Você lançou o livro O que os cegos estão sonhando? em 2012, obra em que três gerações da sua família se debruçam sobre o Holocausto. Como foi escrever sobre o horror de Auschwitz sob um ponto de vista tão pessoal?

Noemi – Foi, sem dúvida, uma das coisas mais importantes que já fiz na vida. Para mim e para minha mãe também. Ela sempre quis que sua história fosse contada, para que não morresse, e sinto que cumpri com isso de uma forma não apelativa e que pode ajudar a refletir sobre o assunto a partir de alguns pontos de vista diferentes. Não foi nada fácil, é claro, mas foi uma dificuldade que quis e precisei enfrentar para dar voz a algo que me constitui como pessoa, que me ofereceu desafios literários e que faz parte de uma história que nunca pode ser esquecida, ainda mais agora que estão querendo negar o passado.

Você ministra cursos de escrita criativa. Muitos dos nossos associados relataram que gostariam de escrever, mas não sabem como começar. Quais os pontos básicos que você recomenda a seus alunos?

Noemi – Acho que a melhor “dica” que posso dar a quem está começando é: releia, releia, releia e corte, corte, corte. Além disso, um escritor precisa estar sempre em estado de leitura: dos clássicos e dos contemporâneos, do seu país e dos outros.

Ultimamente notamos que tem crescido o número de publicações da chamada autoficção. Por que acredita que está ocorrendo esse movimento?

Noemi – Na minha opinião, somente o nome é recente. A prática é extremamente antiga e cheia de nuances. Muito do que se produziu nos últimos dois séculos em romances é autoficção. Ou será que Em busca do tempo perdido não pode ser considerado autoficção, por exemplo? Ou Mrs. Dalloway, ou mesmo Madame Bovary, quando Flaubert proclama que “Mme. Bovary c’est moi?”. Se ampliarmos o espectro dessa noção, a história da autoficção remonta a um passado remoto. Mas no sentido mais estrito, em que narrador e autor chegam a coincidir, como no caso de Minha Luta, do norueguês Karl Ove Knausgård, penso que está relacionado a um “relaxamento” do rigor romanesco e de uma maior atenção ao trivial e às contingências. Não é mais compulsório estabelecer separações rígidas entre autor e narrador, é importante borrar as fronteiras e o real está tão espantosamente assustador (pleonasmo), que soa mais irreal do que a própria ficção.

Você comentou ter gostado também do último livro da Carol Bensimon, O clube dos jardineiros da fumaça, que lhe rendeu o Jabuti de melhor romance em 2018.

Noemi – A Carol Bensimon tem uma capacidade muito grande e singular de dar importância aos detalhes mínimos que compõem uma paisagem e um personagem. Isso faz com que eles soem muito vívidos e dinâmicos, num ritmo narrativo que acompanha suas ações. Acho que isso está nos dois romances. Acho que até existe certo sentido de continuidade, em que o segundo apresenta um trabalho de pesquisa do real mais aparente do que o primeiro, já que a localização e o assunto são estrangeiros.

“Um escritor precisa estar sempre em estado de leitura: dos clássicos e dos contemporâneos, do seu país e dos outros.”

O que você gostaria de falar aos 30 mil associados que irão ler Todos nós adorávamos caubóis pela primeira vez?

Noemi – Que eles lerão um romance de formação e em formação, em que a vida e a sexualidade de duas meninas jovens se perfaz numa viagem que é delas, mas também do leitor. Viagem geográfica, mas principalmente subjetiva.

A estante de Noemi Jaffe

O primeiro livro que li: O menino do dedo verde, de Maurice Druon

O livro que estou lendo: Bússola, de Mathias Enard

O livro que eu gostaria de ter escrito: Ao farol, de Virginia Woolf

O último livro que me fez chorar: O rei se inclina e mata, de Herta Müller

O último livro que me fez rir: Alguns humanos, de Gustavo Pacheco

O livro que eu não consegui terminar: Fenomenologia do Espírito, de Hegel

O livro que eu dou de presente: Primeiras estórias, de Guimarães Rosa

O livro que mudou a minha vida: José e seus irmãos, de Thomas Mann

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