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Entrevista: Javier Cercas e “O sonho dos heróis”

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Javier Cercas foi o curador de abril da TAG Curadoria, indicando o livro O sonho dos heróis, de Adolfo Bioy Casares. Cercas nasceu na pequena cidade de Ibahernando, Espanha, em 1962, e mudou-se ainda criança para Girona, cidade catalã. O ponto de virada de sua carreira veio com Soldados de Salamina (2001), romance que vendeu mais de 300 mil exemplares apenas no país de origem, tendo sido elogiado por ninguém menos que Mario Vargas Llosa. A reflexão metaliterária, como nos primeiros livros, é elemento permanente na escrita de Cercas, que gosta de operar a partir das ambiguidades e dos paradoxos que a ficção proporciona.

Javier Cercas
Javier Cercas

Cercas também é o autor de A velocidade da luz, livro enviado pela TAG em janeiro. Trata-se da história de um jovem aspirante a escritor que conhece um homem misterioso, marcado por um segredo de guerra. A seguir, uma entrevista exclusiva com Cercas, na qual ele fala sobre o seu encantamento com O sonho dos heróis, Bioy Casares e outros autores latino-americanos.

TAG – Como foi ler pela primeira vez O sonho dos heróis?

Javier Cercas – Eu devia ter vinte e dois ou vinte e três anos quando li esse romance pela primeira vez, um momento decisivo para mim porque havia começado a escrever seriamente e estava lendo a obra inteira de Bioy Casares, que naquele momento se tornou um dos meus escritores favoritos. O fato é que o livro me deslumbrou. Além disso, acho que esse romance em particular – e a obra de Bioy Casares em geral – contribuiu para que eu me encontrasse como escritor e a elucidar um caminho que, naquele momento, procurava um pouco às cegas.

Em O sonho dos heróis, temos como protagonista um homem de caráter duvidoso, do tipo que se ama odiar. Isso se repete, ainda que de forma diferente, em seu livro, A velocidade da luz. Você acha que evidenciar as contradições dos personagens resulta em uma maior proximidade dos leitores com a obra?

Cercas – Acredito que as pessoas são contraditórias e que a literatura tem o dever de mostrar essas contradições. Na realidade, são as contradições que dão complexidade às pessoas e, portanto, também aos personagens. Quanto ao protagonista, Emilio Gauna, acredito que é sobretudo um jovem muito ingênuo, deslumbrado com um ideal equivocado do qual acaba sendo vítima: o ideal épico, feito do culto à coragem e à amizade, dos compadritos portenhos que Borges gostava tanto.

Você disse que Borges é um de seus escritores favoritos. Agora, indica um trabalho de Bioy Casares, amigo íntimo dele. Como você percebe a influência argentina e latinoamericana na visão literária do fantástico?

Cercas – Borges – e também Bioy Casares, embora seu trabalho seja menos conhecido e menos influente que o dele – tem sido fundamental para muitas coisas no âmbito da língua espanhola e fora dela. Entre elas está, é verdade, uma certa rejeição do realismo e uma certa dignificação da Literatura Fantástica, desacreditada pelo triunfo do realismo na literatura do século XIX (e em grande parte do século XX). E é verdade que isso não é exclusivo de Borges, mas também se estende a uma parte da literatura latino-americana que sem Borges não existiria: falo do chamado boom dos anos sessenta, em que devemos incluir, por exemplo, o realismo mágico de García Márquez. Em todo caso, a literatura latino-americana – até mesmo a literatura argentina – é muito vasta e complexa demais para ser reduzida a uma única característica ou tendência, por mais importante que seja.

Sobre o seu trabalho, você afirma que, para que o leitor consiga apropriar-se da obra, o escritor deve criar um espaço para isso, uma ambiguidade, um ponto cego. Qual é o “ponto cego” de O sonho dos heróis?

Cercas – Eu nunca me perguntei a respeito, não sei se há algum. De fato, pode haver grandes romances sem um ponto cego (quase todo o romance realista carece dele, por exemplo), mas não pode haver grandes romances sem ambiguidade, e O sonho dos heróis é cheio de ambiguidades, que são aqueles espaços por meio dos quais o leitor se apropria do romance. O ponto cego é simplesmente uma ambiguidade central, permeando todas as camadas do romance, que chega a todos os lugares e o torna essencialmente ambíguo (e, para mim, quanto mais ambíguo é um romance, melhor). Embora, agora que penso a respeito, talvez o romance de Bioy Casares tenha um ponto cego, mas isso só é descoberto no final, então não posso revelá-lo. Vamos ver se o leitor descobre.

Sobre sua viagem aos Estados Unidos quando era um jovem aspirante a escritor, você comentou que percebeu que, ainda que tentasse se tornar um escritor americano pós-moderno, você seria para sempre um escritor espanhol. Como você vê a questão da identidade no romance latino-americano, especialmente no contexto de autores marcados pelo regionalismo argentino?

Cercas – Eu não acredito em regionalismo na literatura, a menos que seja uma forma de universalismo: não há autores mais conscienciosamente argentinos que Borges, Bioy Casares ou Cortázar, e eles são alguns dos mais universais. Quanto à identidade, digo o mesmo: literatura é aquilo que torna o particular universal. Basicamente, o que eu queria dizer com a piada que você citou é que quando eu era jovem eu era um pouco esnobe e não entendia exatamente isso, que a única maneira que eu tinha de ser universal era ser espanhol, isto é, partir da minha própria realidade para tentar construir uma realidade válida para todos. Isso é literatura.

O que você diria para os mais de 30 mil associados que lerão O sonho dos heróis pela primeira vez? Que outras obras você indicaria para aqueles que se interessaram por este título?

Cercas – Diria àqueles que lerem O sonho dos heróis pela primeira vez que têm muita sorte, que os invejo, porque, embora seja verdade que eu realmente goste de reler os romances que aprecio – a literatura, para mim, é aquilo que permite muitas leituras, e um grande livro é aquele que nunca se esgota –, a verdade é que o deslumbramento da primeira vez é maravilhoso. De resto, eu recomendaria tudo ou quase tudo de Bioy Casares, em particular seus volumes de contos, romances como Diário da guerra do porco (1969), La aventura de un fotógrafo en La Plata (1985) e, claro, Borges (2006), o livro extraordinário e quase inacabável em que ele coletou as anotações que tomou durante a maior parte da vida sobre os encontros com seu amigo. Mas, insisto, quase todo o Bioy Casares, mesmo o menor deles, é uma delícia.

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